Cariacica (ES) – O cinema de Hollywood construiu durante décadas a imagem do tubarão como uma ameaça implacável dos oceanos, variando entre o terror clássico e o exagero da ficção científica. Longe das telas, no entanto, esses predadores ganham uma nova função que pode ser vital para a segurança humana: a de observadores móveis capazes de rastrear dados cruciais para a previsão de furacões. Pesquisadores da Universidade de Delaware lideram um esforço para transformar esses peixes em sensores vivos que operam em tempo real.
A tecnologia por trás dessa iniciativa consiste em pequenos dispositivos eletrônicos fixados aos animais. Enquanto o tubarão se desloca pelo ambiente marinho, o equipamento monitora variáveis fundamentais como a temperatura, a profundidade e a condutividade elétrica da água — este último parâmetro sendo um indicador direto da salinidade. O objetivo é alimentar modelos oceanográficos e atmosféricos que sofrem com a escassez de dados precisos nas camadas superficiais do oceano durante a temporada de tempestades.
A escolha dos tubarões para essa tarefa estratégica não foi aleatória. Aaron Carlisle, pesquisador principal e professor da Escola de Ciências Marinhas e Políticas da universidade, aponta que, embora o uso de sensores em animais marinhos já seja uma realidade consolidada, especialmente com elefantes-marinhos em zonas polares, os tubarões apresentam vantagens práticas. Sua ampla distribuição geográfica e a facilidade de acesso em comparação com espécies protegidas tornam o monitoramento mais viável e abrangente.
Tradicionalmente, a marcação eletrônica em tubarões focava apenas no mapeamento de rotas migratórias e na identificação de habitats. O novo projeto subverte essa lógica ao selecionar espécimes que possuem padrões de comportamento específicos, como o hábito de subir à superfície com frequência. Esse detalhe é vital para que os sensores consigam transmitir as informações coletadas para os satélites de forma eficiente e constante.
O foco principal do estudo está na camada mista, o estrato superior da coluna d’água que atua como um reservatório de calor. É precisamente essa energia contida na superfície oceânica que serve de combustível para os furacões. Segundo os especialistas, quanto maior a temperatura dessa camada, maior a probabilidade de intensificação dos fenômenos climáticos ao tocarem a costa. Ao compreender melhor esse conteúdo de calor por meio da movimentação dos tubarões, a ciência ganha uma ferramenta precisa para antecipar o poder destrutivo das tempestades antes que elas alcancem áreas habitadas.






