Brejetuba (ES) – O fluxo de mais de 50 mil pessoas em direção a Ceuta e Melilla, enclaves espanhóis encravados no norte da África, não é um movimento isolado. Para a Associação Marroquina de Direitos Humanos (AMDH), esse êxodo massivo tem um culpado claro: o Estado de Marrocos. A organização, uma das mais influentes do país no setor, documentou o cenário que resultou em quase 100 mortes durante a travessia, segundo registros das autoridades locais.
O desespero, segundo a AMDH, transcendeu a esfera individual para se tornar uma identidade coletiva. O deslocamento forçado funciona hoje como uma linguagem de protesto, uma forma de manifestar a raiva popular contra políticas públicas que, na visão da entidade, falharam em entregar dignidade. Em um documento aprovado pelo seu Bureau Central, a associação denuncia que a riqueza do país está concentrada nas mãos de um pequeno grupo, sustentada por uma estrutura de economia rentista, corrupção endêmica e um autoritarismo que sufoca perspectivas.
A tensão migratória é interpretada como o ápice de décadas de marginalização. A entidade critica a instrumentalização dessas pessoas em jogos diplomáticos, sendo usadas como peças de barganha nas negociações entre Marrocos e a União Europeia. Esse uso político, condenado pela ONG, ignora os direitos fundamentais de quem arrisca a vida. O silêncio das instituições marroquinas diante da crise é visto como um fator que apenas fortaleceu a mobilização em diversas cidades, transformando o mal-estar social em um fenômeno constante.
Enquanto a AMDH foca na crise doméstica, o cenário internacional também sofre críticas. A organização aponta que a retórica de líderes ocidentais, especialmente da extrema-direita, utiliza o imigrante como um bode expiatório, pintando-o como uma ameaça existencial para justificar políticas de ódio.
Mohammed Nadir, professor de relações internacionais na UFABC, observa um paradoxo estrutural. Marrocos, sob o comando do rei Mohammed VI — que completou 27 anos no trono em 29 de julho —, modernizou infraestruturas, expandiu o setor automotivo e o aeroespacial, transformando o país em um hub logístico e industrial no Norte da África. No entanto, o ritmo desse progresso não atingiu a base da pirâmide.
Nas ruas, a realidade que o professor testemunhou durante a crise destoa dos números macroeconômicos. O aumento do custo de vida e a precariedade no acesso à saúde pública empurram os jovens para fora. Embora o país apresente um crescimento do PIB na casa dos 4,9% e mantenha um IDH de 0,71, o desemprego entre jovens de 15 a 24 anos atingiu a marca de 24,9% em 2022.
Em resposta à instabilidade, o rei Mohammed VI defendeu, em mensagem oficial, um ideal de confiança. O monarca destacou a estabilidade e a eficácia das instituições, reforçando o status do país como maior exportador automotivo da África. Para a coroa, o momento é de otimismo. Para os milhares de jovens que buscam as fronteiras de Ceuta, o otimismo parece ser uma realidade distante da marginalização que enfrentam diariamente.











