Vitória (ES) – Praticamente toda família hoje convive com o celular grudado na rotina, na mesa do jantar, no sofá depois do trabalho, no caminho da escola. Mas um novo estudo levanta uma pergunta incômoda: será que essa presença constante da tela está custando algo na relação com os filhos?
Para tentar responder, pesquisadores entrevistaram 600 adolescentes americanos, entre 12 e 17 anos. O padrão apareceu com clareza: quanto mais os jovens percebiam os pais absortos em celulares, tablets e outros dispositivos, mais frequentes eram os sinais de apego inseguro. Não um caso isolado ali, outro aqui — uma tendência que se repetia. E apego inseguro, vale lembrar, costuma andar junto de dificuldades emocionais, problemas de saúde mental e relações mais frágeis mais adiante na vida.
Os próprios pesquisadores fizeram questão de frear qualquer conclusão precipitada: os dados não provam que o celular cause essa insegurança. O que eles sugerem é outra coisa — que a disponibilidade emocional dos pais no ambiente digital pesa no desenvolvimento psicológico de quem está crescendo. Uma diferença sutil, mas que muda tudo.
Porque a segurança emocional não nasce de grandes gestos. Nasce do miúdo. Uma conversa despretensiosa no carro. Um olhar que não desvia para a tela assim que ela pisca. A escuta sem pressa de terminar logo aquilo.
Flávia Ceccato, autora do livro “Descobrindo a Inteligência Existencial: Ferramentas, Insights e Implicações”, resume bem essa fragilidade: “A presença emocional é um dos principais pilares da construção da segurança afetiva. O adolescente precisa perceber que existe espaço para ser ouvido, acolhido e compreendido. Quando a atenção dos cuidadores é frequentemente interrompida pelas telas, essa percepção pode ser enfraquecida.”

Mas o que é, afinal, esse apego inseguro? É o modo como cada pessoa constrói seus vínculos afetivos ao longo da vida — e quando esses vínculos nascem consistentes, tendem a sustentar autoestima e autonomia no futuro. Quando não, aparecem outras marcas: ansiedade constante nas relações, medo de abandono, dificuldade de confiar, ou o oposto — um afastamento emocional quase automático. Nenhum desses padrões nasce de um único gatilho. É sempre um conjunto de experiências.
“Não se trata de demonizar a tecnologia ou responsabilizar exclusivamente os pais. O desenvolvimento emocional é multifatorial. O estudo chama atenção para um aspecto importante: a qualidade das interações familiares continua sendo um elemento fundamental para a saúde mental”, pondera Ceccato.
Tem uma segunda camada nisso tudo, e talvez ela pese ainda mais: o exemplo. Quando o celular vira o centro das refeições e das conversas, essa cena vai se naturalizando — e é reproduzida, sem querer, pelas próximas gerações. Uma espécie de herança que ninguém escolhe deixar. “O comportamento dos pais ensina tanto quanto suas orientações, por isso, demonstrar equilíbrio no uso da tecnologia transmite uma mensagem muito mais forte do que apenas estabelecer regras para os filhos”, afirma Ceccato.
Ela recorre ainda ao conceito de inteligência existencial, tema central do seu livro, para pensar como as pessoas administram tempo e prioridades em meio a tantas distrações. Estar verdadeiramente presente, segundo ela, exige escolhas conscientes — nada trivial num mundo desenhado para capturar atenção o tempo todo. “A inteligência existencial nos convida a refletir sobre aquilo que realmente tem valor na nossa vida. Em muitos casos, alguns minutos de atenção plena durante uma conversa podem fortalecer vínculos muito mais do que horas de convivência marcadas por distrações constantes”, diz.
Reservar momentos sem celular — nas refeições, nos passeios, nas conversas soltas de fim de dia — pode elevar a qualidade dessas trocas e reforçar a segurança emocional dos filhos. “A tecnologia faz parte da nossa realidade e oferece inúmeros benefícios. O desafio é impedir que ela substitua aquilo que nenhuma tela consegue oferecer: a presença humana genuína, a escuta e a construção de vínculos que sustentam o desenvolvimento emocional ao longo da vida”, conclui Flávia Ceccato.













