Nouadhibou, Mauritânia – O rastro de destruição deixado por rotas migratórias clandestinas voltou a se evidenciar nos últimos dias junto ao litoral da Mauritânia. Relatos confirmados pela Agência da ONU para Refugiados, o Acnur, apontam que 144 pessoas morreram ou desapareceram no mar durante a última semana. A tragédia ocorre em meio a uma tentativa desesperada de migrantes e refugiados de alcançar a Europa, partindo da África Ocidental.
Entre a terça e a sexta-feira, equipes de emergência conduziram três operações de resgate na cidade de Nouadhibou. Ao todo, 387 sobreviventes foram retirados das águas. A cena descrita pelos socorristas — que atuaram em conjunto com autoridades locais — foi definida como arrasadora. Uma das embarcações aportou transportando não apenas 38 sobreviventes, mas também os corpos daqueles que não suportaram a jornada.
O impacto humano da crise transcende as estatísticas. Matt Saltmarsh, porta-voz do Acnur, relatou que entre os resgatados desse barco específico estavam duas crianças, agora sob cuidados hospitalares, que perderam todos os seus familiares durante o trajeto. Ainda não há clareza técnica sobre o que causou o óbito das vítimas, majoritariamente oriundas da África Subsaariana. As autoridades investigam se o desfecho trágico foi motivado por afogamento, exposição, desidratação ou fome extrema, circunstâncias recorrentes nessas rotas.
Somam-se a esses números o óbito de mais uma pessoa em uma embarcação distinta, que chegou à costa em 14 de julho. Desde o início de 2026, a frequência dessas operações em Nouadhibou e Nouakchott tem exigido uma mobilização constante. Já foram registrados 17 desembarques este ano, totalizando 2.147 pessoas salvas da morte no oceano.
Curiosamente, os dados globais da ONU indicam uma mudança no comportamento do fluxo migratório. O volume de chegadas à Europa por vias marítimas recuou significativamente em comparação ao ano anterior. No primeiro semestre de 2026, foram computadas pouco mais de 40 mil chegadas, uma redução expressiva frente às 65.407 registradas no mesmo período de 2025 — uma queda superior a um terço do total.
Contudo, a queda na quantidade de embarcações não se traduziu em maior segurança para quem decide partir. O Acnur mantém o alerta: a taxa de mortalidade e o índice de desaparecimentos permanecem em níveis alarmantes. Para os que não encontram alternativas seguras e optam por arriscar a vida no mar, a jornada continua sendo uma sentença de perigo extremo. A realidade na costa mauritana reforça, segundo a agência, o custo humano contínuo e arrasador que essas travessias impõem aos mais vulneráveis.











