Santarém (PA) – Do alto de seu terraço, Dórisson Borari e Maria Munduruku observam diariamente o encontro entre o Rio Tapajós e as belezas naturais que tornaram Alter do Chão, em Santarém, um dos destinos mais procurados do Pará. Onde muitos veem apenas um cenário cênico, eles enxergam a continuidade de um legado. Em 1997, o casal decidiu converter a residência da família na Pousada do Mingote, pioneira no acolhimento de viajantes que buscam algo além das praias de água doce.
Para eles, a hospedagem é mais do que um negócio; é uma forma de salvaguardar raízes. Maria, que também dirige a Escola Indígena Borari Professor Antônio de Sousa Pedroso, atua como uma guardiã da memória local. Pelos corredores da pousada, objetos como o Arco do Sairé — estrutura de cipó e fitas que simboliza o sincretismo religioso da região — servem como fios condutores para a história dos povos Borari e Munduruku. O objetivo é claro: mostrar o orgulho cultural sem ceder à comercialização vazia.
Essa postura de guardiões, no entanto, coloca o casal em rota de colisão com interesses externos. Dórisson não hesita em classificar como invasores aqueles que enxergam a floresta apenas sob a ótica do lucro. Recentemente, a família enfrentou e conseguiu embargar um projeto que pretendia transformar uma área de educação ambiental em um condomínio de luxo com impacto direto no esgoto e na mata nativa. Em janeiro, o ativismo escalou quando Dórisson participou da ocupação do terminal portuário da Cargill, em Santarém, mobilizando quase 2 mil indígenas contra o Decreto Federal nº 12.600/2025. A norma, que pretendia incluir rios amazônicos no Programa Nacional de Desestatização, foi revogada após um mês de pressão coletiva.
O modelo adotado nessas iniciativas é o Turismo de Base Comunitária (TBC), onde o protagonismo pertence a quem vive no território. Em uma região com cerca de 3,6 mil habitantes, esse formato garante que os recursos financeiros circulem internamente, preservando áreas como a Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns. Segundo dados da prefeitura de Santarém, o fluxo turístico na região atingiu 312 mil visitantes em 2025, movimentando R$ 202 milhões, um crescimento de 15% em relação ao ano anterior.
A dinâmica de transformar o cotidiano em experiência turística se repete na comunidade de Piquiatuba, dentro da Floresta Nacional do Tapajós. Foi lá que Eltom John Vasconcelos, em 2018, percebeu que o fluxo de trilheiros podia sustentar sua família. Com uma placa improvisada de “restaurante” na porta de casa, o negócio floresceu. Hoje, a Casa do Eltom oferece desde pratos regionais até lanchas e trilhas educativas, consolidando uma alternativa econômica que evita a migração forçada para centros urbanos.
A jornada do turista na região se completa com figuras como o condutor Joacy Rodrigues, que há duas décadas utiliza as trilhas da floresta como sala de aula. Ao ensinar sobre o uso medicinal da curuá ou as propriedades da formiga tapiba, Joacy reforça o valor intrínseco da floresta em pé. Como bem aponta o setor de apoio aos pequenos negócios, a força do turismo amazônico reside justamente nesse vínculo impossível de ser replicado por grandes corporações: a identidade inegociável de quem conhece cada centímetro da terra onde pisa.













