Vitória (ES) – O cenário geopolítico global, marcado pela escalada de tensões e pela movimentação de grandes potências, impõe ao Brasil a urgência de repensar suas prioridades estratégicas. Durante a 2ª Conferência Nacional Política Externa e Inserção Internacional do Brasil, realizada nesta semana na Universidade Federal do ABC (UFABC), em São Bernardo do Campo (SP), o assessor-chefe adjunto da Assessoria Especial da Presidência da República, Audo Faleiro, traçou um diagnóstico realista sobre os gargalos que o país precisa enfrentar até o fim desta década.
A segurança nacional desponta como um dos nós mais complexos desse tabuleiro. A recente atividade militar dos Estados Unidos na Venezuela, focada no controle de reservas petrolíferas, acendeu um sinal de alerta no continente. Embora descarte riscos imediatos ao pré-sal ou ao programa nuclear brasileiro, Faleiro argumenta que o episódio expôs a vulnerabilidade regional e exige uma postura ativa em defesa. Trata-se de romper com o eterno dilema nacional entre a crença em um pacifismo inabalável e o derrotismo de que investimentos no setor seriam inúteis frente às superpotências. O caminho, segundo o assessor, passa pela capacidade de dissuasão. Conflitos assimétricos recentes mostram que a força militar bruta nem sempre garante a vitória.
Riquezas estratégicas e atraso tecnológico
Além da defesa, a soberania sobre recursos naturais e a tecnologia exigem respostas rápidas. Detentor da segunda maior reserva global de minerais críticos e terras raras, o Brasil opera sob uma legislação defasada. Para tentar reverter esse atraso e criar estratégias de aproveitamento econômico, o governo federal planeja estruturar o Conselho Nacional de Minerais Críticos, diretamente subordinado à Presidência. A lentidão também cobra seu preço na transição digital: o país perdeu o momento áureo das discussões globais sobre soberania digital e agora corre contra o tempo para atrair investimentos pesados que recuperem o terreno perdido.
No campo da segurança pública e do combate ao crime organizado transnacional, o desafio é evitar o uso político e ideológico do tema. A resposta do governo brasileiro foi ocupar espaços de poder global, como a eleição de um delegado da Polícia Federal para a direção-geral da Interpol. Com essa credencial, a diplomacia brasileira pretende propor uma agenda unificada de combate ao crime na América Latina, constrangendo até mesmo governos vizinhos historicamente alinhados a Washington a cooperarem.
Impasse na integração regional e nos BRICS
A fragmentação política na América do Sul também impõe limites severos à atuação externa do país. O assessor apontou que a eleição de Javier Milei na Argentina e os desdobramentos do processo eleitoral venezuelano em 2024 geraram um cenário de paralisia institucional. Mecanismos de integração como a Unasul e a Celac encontram-se travados por vetos cruzados. Na África, onde o Brasil já desfrutou de grande prestígio político nos primeiros mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva, o cenário atual é de concorrência acirrada após dez anos de abandono diplomático por parte do Estado brasileiro.
Faleiro também não poupou críticas à condução dos BRICS. Para ele, a ampliação do bloco decidida em 2023 — que incorporou nações como Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã — foi um equívoco estratégico. A entrada de membros com rivalidades históricas diretas inviabilizou o consenso interno. O resultado prático é o travamento do grupo, incapaz de emitir sequer uma nota conjunta sobre a crise humanitária e militar no Oriente Médio devido aos conflitos de interesse entre Irã e Emirados Árabes Unidos.









