No ano passado, mais de 1.248 homens mataram mulheres no Brasil, um cenário preocupante debatido nesta quarta-feira (11) por especialistas e parlamentares em uma comissão do Congresso Nacional focada no combate à violência contra a mulher. Os dados, referentes a 2025, revelam que do total de 1.568 mulheres assassinadas, a maioria, 62,6%, eram negras e 66,3% perderam a vida dentro de casa.
As participantes do debate ressaltaram que os números reais podem ser ainda maiores, devido à subnotificação e a crimes que não são solucionados. A deputada federal Luizianne Lins (PT-CE), presidente da comissão, conduziu a reunião e afirmou que essas estatísticas são uma vergonha para o país, exigindo ações urgentes.
Luizianne Lins destacou a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do DataSenado, como uma ferramenta essencial para a criação de políticas públicas. Todas as presentes também reforçaram a importância do Ligue 180, o número nacional para denúncias de violência contra a mulher.
A deputada enfatizou a gravidade da situação. “Neste momento, no Brasil, nós estamos vivendo mais do que uma rotina na luta contra a violência contra a mulher. Nós estamos aqui fazendo um verdadeiro chamado de emergência. Um grito de alerta que ecoa dos lares, das ruas e dos espaços de poder de todo o país. (…) A cada dia que passa quatro mulheres são brutalmente assassinadas por serem mulheres”, declarou.
Democracia e Violência
Eutália Barbosa Rodrigues Naves, secretária-executiva do Ministério das Mulheres, trouxe à tona a seriedade da violência política de gênero no Brasil, um problema que parlamentares enfrentam constantemente. Ela defendeu o feminismo como um projeto social que busca eliminar a desigualdade de gênero, garantindo que “todos e todas possam viver com dignidade, construindo uma sociedade verdadeiramente democrática”.
Eutália Naves reforçou que “a gente precisa gritar em alto e bom som: não existe democracia de nenhuma natureza se não houver igualdade de gênero, se as mulheres ainda estiverem perdendo o seu direito elementar, que é o direito à vida”.
Rúbia Abs da Cruz, do Consórcio Lei Maria da Penha, alertou que a violência contra as mulheres se manifesta em todos os setores da sociedade e está crescendo em suas formas: psicológica, física, sexual, patrimonial, parental, vicária, política e digital, entre outras. Ela defendeu a necessidade de um trabalho preventivo, com educação nas escolas, para mudar a cultura e promover o respeito às mulheres desde a infância.
Rúbia Abs da Cruz também informou que o movimento de mulheres, com o apoio do Ministério das Mulheres, está desenvolvendo uma proposta de lei geral para combater a violência digital, um tipo de agressão cada vez mais presente.
Vulnerabilidade das Mulheres Negras
Maria Teresa Prado, servidora do Senado e representante do Observatório da Mulher contra a Violência do Senado Federal, apresentou dados da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher de 2025. Ela destacou um ponto positivo: no Distrito Federal, nenhuma mulher com medida protetiva foi morta no ano passado, o que reforça a eficácia da rede de atendimento e proteção.
Juliana Brandão, pesquisadora sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, apontou que o Brasil lida com uma desigualdade de gênero intrinsecamente ligada ao racismo estrutural. “Os dados [sobre o ano passado] nos mostram que há um grupo que sofre uma maior vulnerabilidade. E qual é esse grupo? Esse grupo é o das mulheres negras: 62,6% das vítimas [fatais] eram mulheres negras, e mulheres muito jovens. São mulheres que estão aí em idade reprodutiva”, explicou Juliana.
Ellen dos Santos Costa, coordenadora-geral do Ligue 180, enfatizou que o feminicídio é um crime totalmente evitável. Ela reforçou a importância de usar cada vez mais o serviço do Ligue 180, que funciona em todo o território nacional, como uma ferramenta crucial na prevenção e denúncia de casos de violência.







