Brasília (DF) – O governo dos Estados Unidos colocou o Pix no centro de uma disputa comercial de grandes proporções. Em um documento liberado na noite da última segunda-feira (1º), o escritório do Representante Comercial estadunidense (USTR) classificou o sistema brasileiro como uma ferramenta discriminatória, alegando que o modelo de operação atual prejudica empresas estrangeiras do setor de pagamentos eletrônicos, entre elas nomes de peso como Visa, MasterCard e o braço de pagamentos do WhatsApp.
A ofensiva tem raízes em uma investigação iniciada há exatamente um ano, sob a gestão de Donald Trump, focada no que Washington descreve como práticas desleais no comércio exterior. Jennifer Thornton, conselheira jurídica geral do USTR, aponta uma suposta irregularidade no fato de o Banco Central brasileiro atuar, ao mesmo tempo, como regulador e operador da plataforma. Segundo o entendimento norte-americano, essa dualidade cria um conflito de interesses ao priorizar o Pix sobre opções privadas, desobrigando empresas dos EUA de qualquer compensação pela perda de mercado.
A pressão vai além da diplomacia. O relatório sugere medidas de retaliação que incluem a taxação de até 25% sobre determinados produtos brasileiros. As autoridades brasileiras, assim como as companhias que se consideram afetadas pela medida, têm até o dia 15 de julho para enviar contestações antes que o governo americano defina se implementará as sanções efetivamente.
A raiz do embate comercial
O centro do descontentamento estadunidense reside nas regras impostas pelo Banco Central, que obrigam instituições financeiras com mais de 500 mil contas ativas a disponibilizar o Pix com destaque e sem custos aos usuários. Para a Casa Branca, isso funciona como uma imposição de ônus ao setor privado americano. Contudo, analistas veem o movimento por outro ângulo. Para Pedro Paulo Zahluth Bastos, docente no Instituto de Economia da Unicamp, a iniciativa reflete uma disputa pela soberania sobre os fluxos financeiros internos.
O Pix rompeu o modelo de taxas de intermediação que geravam lucros expressivos — frequentemente variando de 2% a 5% por operação — para as grandes bandeiras de cartão de crédito. Ao oferecer um serviço gratuito e instantâneo, o Estado brasileiro criou um ecossistema que desbancou as redes privadas. Para Bastos, não há qualquer violação legal na oferta desse serviço público. Ele reforça que a queixa de discriminação mascara o real interesse de garantir o retorno sobre capitais que veem o modelo soberano brasileiro como uma ameaça sistêmica e global, já que outros países observam o sucesso da iniciativa para implementar suas próprias versões.
O cenário é desenhado por um histórico de lobby intenso. Grandes corporações do setor de pagamentos e gigantes de tecnologia pressionam o governo Trump desde o lançamento da ferramenta brasileira, incomodadas pela ascensão meteórica do Pix, que hoje movimenta volumes de recursos superiores aos dos métodos tradicionais de cartão. A estratégia de Washington, ao mirar na infraestrutura de pagamentos, sinaliza o início de uma nova fase nas relações bilaterais, onde o controle digital passa a ser um campo de batalha indispensável para a preservação de lucros corporativos estrangeiros.












