Guaçuí (ES) – Ivanete Nunes Correia, de 45 anos, lembra com precisão do momento em que ouviu a palavra que mais temia: amputação. Internada havia meses, via as próprias feridas piorarem a cada dia, mas se agarrava à esperança de que aquilo não seria o fim do caminho. Quando a notícia chegou, foi como um chão que se abre.
“Quando soube que teria que amputar a perna, foi um momento desesperador. Por mais que eu visse que minha perna estava muito infeccionada, que as feridas estavam muito grandes, com muita secreção e exposição, eu tinha esperança de não perder a perna. Então, quando eles me deram a notícia de que não teria outro jeito, foi um choque muito grande para mim”, relembra.
Morando sozinha e acostumada a cuidar da própria vida sem depender de ninguém, Ivanete via na amputação a perda de algo maior do que um membro: a perda da própria independência.
“Chorei demais e me deu uma tristeza muito grande. Eu não queria perder um membro, ainda mais uma perna. Sou uma pessoa que mora sozinha, que depende de si mesma. Foi extremamente difícil receber a notícia. Foi um dos momentos mais difíceis da minha vida aceitar que iria perder essa perna”, conta.
Uma alternativa em meio ao desespero
Foi nesse cenário — internada no Hospital Evangélico de Cachoeiro de Itapemirim e depois transferida para a Santa Casa de Guaçuí em busca de um atendimento de referência — que Ivanete recebeu uma notícia capaz de mudar tudo: havia uma chance, ainda que incerta, de preservar a perna.
“Quando eu soube que poderia preservar minha perna e não precisaria amputar, foi um momento de extrema alegria e felicidade. Eu me agarrei, mesmo sendo uma possibilidade, na minha fé, em Deus principalmente, e fiquei ali com a esperança de que o procedimento daria certo e que não precisaria amputar minha perna, que ela seria preservada”, diz.
Essa chance tinha nome: terapia celular e medicina regenerativa, técnica aplicada pela primeira vez no Sul do Espírito Santo, em 15 de agosto, pela equipe de cirurgia vascular da Santa Casa de Guaçuí — formada por Diego Ferreira Franco, Vicente Freitas, Carlos Augusto Silva Reis e Matheus Trigo.
Ao longo do tratamento, uma frase resumia o que Ivanete mais queria: “Eu saí da minha casa com a minha perna e queria voltar para casa com ela. Seria a vitória de meses e meses de luta. Parecia que eu tinha renascido de novo. Num momento eu ia perder minha perna e, de repente, veio a possibilidade de salvar”, destaca.
Para ela, a esperança de manter o membro ia muito além do corpo: significava voltar a andar, cuidar de si mesma sem ajuda e retomar uma vida que havia parado por meses.
Como a ciência entrou na história de Ivanete
O cirurgião vascular Vicente Freitas explica que o procedimento é feito em ambiente hospitalar, sob anestesia, com duração aproximada de uma hora, dividido em três etapas: primeiro, é retirada uma pequena quantidade de gordura do próprio paciente — geralmente do abdome, por uma microcânula, deixando apenas uma marca mínima; em seguida, esse material é processado dentro do centro cirúrgico, em sistema fechado e estéril, com o dispositivo Lipopack Duo, que lava e fragmenta o tecido sem uso de enzimas ou cultivo em laboratório; por fim, o tecido processado é aplicado na lesão e nas bordas ao redor dela, após a limpeza cirúrgica da ferida.
“A lógica é diferente da cirurgia convencional: em vez de apenas remover o tecido doente, devolvemos ao próprio paciente um tecido dele mesmo, rico em elementos que ajudam a criar um ambiente mais favorável à cicatrização. Por ser autólogo — do próprio paciente — não há risco de rejeição, e a coleta e a aplicação acontecem no mesmo tempo cirúrgico”, afirma Vicente.
O médico faz questão de reforçar que a terapia não é uma solução isolada nem garantida: ela integra uma estratégia mais ampla de salvamento do membro, junto com controle de diabetes, tratamento de infecções, curativos e acompanhamento contínuo. Ainda assim, é exatamente essa chance a mais — em quadros como o de Ivanete, com indicação de amputação — que fez a diferença.
O cirurgião Diego Ferreira Franco reforça o que estava em jogo para pacientes como ela: “Quando alguém chega com indicação de amputação, o que está em jogo não é só a perna: é a capacidade de andar, de trabalhar, de manter a independência no dia a dia. […] oferecer uma alternativa antes de se chegar a esse ponto é oferecer a chance de continuar tendo escolha.”
“Foi aqui que comecei a renascer”
Hoje, ao olhar para trás, Ivanete descreve a passagem pela Santa Casa de Guaçuí como um recomeço. Fala da equipe que encontrou pelo caminho com gratidão — e de uma fé que, segundo ela, saiu mais forte de tudo o que viveu.
“Foi aqui que comecei a renascer. Minha esperança voltou, a minha fé aumentou e voltou também a esperança de poder retomar uma vida normal. Foi aqui que encontrei pessoas maravilhosas, seres humanos empáticos. Foi aqui que minha fé em Deus, na medicina e no ser humano se reavivou muito, tornando-se muito mais firme e forte”, relata.
“Foi aqui que tive novamente a possibilidade de voltar a andar, de ter a minha perna, de ter uma vida nova, de recomeçar a minha vida, que tinha sido interrompida durante esses quatro meses. A Santa Casa de Misericórdia de Guaçuí representa renascimento e novas possibilidades em todas as áreas da minha vida, além da oportunidade de viver novos sonhos”, reforça.
Um procedimento, muitas histórias possíveis
Para a supervisora hospitalar Josiane Areal, o caso de Ivanete ilustra o que a instituição busca ao investir em inovação: mais do que equipamentos modernos, a ampliação real das fronteiras do que é possível fazer pela vida humana. “No caso da paciente, a inovação não foi apenas um recurso técnico, mas a diferença entre perder ou manter um membro, devolvendo-lhe dignidade e autonomia”, destaca.
O provedor da Santa Casa de Guaçuí, Vandir Freitas, vê no procedimento a prova de que a localização geográfica não deve limitar a qualidade da medicina oferecida a pacientes como Ivanete — desafiando a ideia de que esse tipo de inovação é privilégio das grandes metrópoles.
Diego Ferreira Franco lembra ainda que histórias como a de Ivanete só se tornaram possíveis graças ao médico Eliud Garcia Duarte Júnior, apontado como mentor e principal responsável por consolidar essa linha de cuidado no Espírito Santo — reconhecido nacional e internacionalmente por isso, e responsável direto por abrir esse caminho para pacientes que hoje têm uma alternativa que antes não existia.
Para Ivanete, no fim, tudo se resume a uma frase simples, repetida como uma promessa cumprida: ela saiu de casa com a sua perna — e voltou para casa com ela.











