Vila Velha (ES) – O ambiente das unidades de terapia intensiva (UTIs) brasileiras tem cobrado um preço alto de quem dedica a carreira ao cuidado de pacientes graves. Um levantamento abrangente, realizado em todos os estados e no Distrito Federal, revelou que 48,5% dos médicos intensivistas convivem com níveis elevados de esgotamento mental e emocional. A insatisfação profissional acompanha esse cenário, atingindo 46,4% dos entrevistados que atuam na área.
O estudo, fruto de uma parceria entre a Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) e o Conselho Federal de Medicina (CFM), ouviu 2.338 profissionais. Os dados desenham um perfil de vulnerabilidade preocupante: cerca de 80% da força de trabalho médica em UTIs demanda algum nível de atenção com a saúde mental, sendo que menos de um quarto dos profissionais reporta baixos índices de desgaste.
Para o diretor de Comunicação do CFM, Estevam Rivello, as disparidades entre o setor público e a rede privada são cruciais para entender o fenômeno. Enquanto o sistema suplementar oferece maior suporte terapêutico e condições estruturais, o serviço público impõe uma rotina de maior estresse, agravada por remunerações inferiores e pelo acúmulo de vínculos empregatícios. A falta de recursos e a constante pressão por decisões precisas diante da finitude da vida intensificam esse processo.
O desgaste atinge níveis de despersonalização, fenômeno que afeta 45,6% dos médicos. Nesses casos, o profissional passa a adotar posturas apáticas ou distantes, o que impacta diretamente a qualidade da assistência e a dinâmica das equipes. A entidade ressalta que essa frieza não é apenas uma reação interna, mas um reflexo da exaustão crônica, que se contrapõe aos pilares de um cuidado humanizado.
Curiosamente, a especialização atua como uma barreira protetora. O inquérito mostra que intensivistas com formação específica apresentam índices menores de esgotamento e despersonalização, além de maior realização profissional, quando comparados a médicos generalistas. Entre estes últimos, a insatisfação atinge mais da metade da categoria, consolidando um quadro que, para as entidades médicas, exige que a saúde mental deixe de ser tratada como tema secundário.
A recomendação é clara: a questão deve ser priorizada em políticas públicas, exigindo a mobilização coordenada de gestores e autoridades de saúde. O impacto da sobrecarga, da precariedade na infraestrutura e do confronto diário com o sofrimento alheio não atinge apenas o indivíduo, mas toda a cadeia assistencial do país.












