Brasília (DF) – O trauma deixado pelo rompimento da barragem de Mariana, em Minas Gerais, ainda reverbera nas águas e na rotina das comunidades do Espírito Santo. Em uma nova tentativa de mitigar o rastro da destruição, o governo federal anunciou a injeção de 450 milhões de reais na região. O recurso, derivado do chamado Novo Acordo do Rio Doce, mira um objetivo claro: sustentar coletivos, associações e cooperativas que tentam recuperar a dignidade e os meios de subsistência de quem foi negligenciado durante anos.
O aporte foi dividido em duas frentes de atuação com cronogramas distintos. Metade da verba, um montante de 225 milhões, é destinada ao edital batizado de “Rio Doce Participativo e Comunitário”. Aqui, o alvo são ações locais e capilarizadas, organizadas em cinco eixos centrais. Agricultura familiar, pesca artesanal e a economia solidária encabeçam as prioridades. Mas há espaço — e urgência — para iniciativas voltadas à preservação da memória, educação, acesso à água potável e a proteção específica de povos indígenas e quilombolas.
Essa parcela do recurso está sob a tutela da Fundação Banco do Brasil. Quem deseja submeter projetos a essa linha de financiamento precisa se apressar: o sistema encerra o recebimento de propostas no dia 22 de junho. Não é apenas uma questão de preencher formulários, mas de articular coletivamente o que restou de uma cultura e de um modo de vida impactados pela lama.
Desenvolvimento estrutural em larga escala
Do outro lado da balança, o governo destinou outros 225 milhões para projetos com ambições estruturais. Diferente da frente comunitária, esta modalidade é voltada ao fortalecimento da governança institucional e à viabilidade de negócios coletivos. A ideia é dar músculo para que as organizações sociais consigam gerir recursos com eficiência e integrar cadeias produtivas regionais, saindo de um estado de dependência constante.
Em parceria com o BNDES, esta fase do chamamento “Rio Doce Participativo” oferece um prazo mais esticado. As propostas podem ser enviadas até 30 de dezembro. Para as entidades que atuam nos municípios impactados, essa é uma oportunidade rara de transição, saindo do socorro emergencial para uma estruturação de longo prazo. Agora, o desafio reside na burocracia do acesso e na capacidade dessas organizações em transformar papel e verba pública em mudança concreta para um território que ainda tenta estancar a própria ferida.













