Brasília (DF) – O mercado brasileiro de ativos digitais vive uma metamorfose silenciosa. O que antes era um ecossistema de especulação pura deu lugar a um porto seguro digital: as stablecoins. Esses ativos, projetados para espelhar o valor de moedas fiduciárias como o dólar, já respondem por oito de cada dez reais movimentados em criptoativos informados à Receita Federal em 2025.
A ascensão é vertiginosa. Em 2019, as stablecoins mal apareciam no radar, com uma fatia modesta de 3,5% do volume mensal. O cenário hoje é outro. Entre agosto de 2019 e o final de 2025, o Fisco registrou um volume total de R$ 1,58 trilhão em negociações, sendo que R$ 1,13 trilhão desse montante — cerca de 71,7% — migrou diretamente para essas moedas estáveis. O ápice desse fenômeno ocorreu em 2023, quando a participação atingiu a marca impressionante de 91,5%.
A soberania da USDT
Dentro desse domínio, um nome se destaca com larga vantagem. A USDT, emitida pela Tether, é a protagonista absoluta, abocanhando 88,7% de todo o volume declarado no período analisado — o equivalente a R$ 1 trilhão. A USDC, outra variante atrelada à moeda americana, detém 7,1%, enquanto a BRZ, lastreada no real, ocupa 3,4% do mercado.
A preferência não é por acaso. Em um ambiente volátil, a função de “moeda de transição” torna-se essencial. Brasileiros utilizam esses ativos para facilitar transferências internacionais e proteger reservas contra as oscilações bruscas do restante do mercado cripto. Em novembro de 2025, a força desse movimento atingiu o recorde de R$ 39,7 bilhões em um único mês.
Novo ciclo de fiscalização
Esse volume expressivo coloca os ativos sob uma lupa mais rigorosa. A partir de julho, o governo dá início à operação da DeCripto, uma plataforma de declaração que centraliza as informações de transações. O sistema, instituído pela Instrução Normativa RFB nº 2.291, alinha o Brasil aos padrões de transparência da OCDE (o CARF), focando no combate à lavagem de dinheiro, evasão de divisas e ao financiamento de atividades ilícitas.
A rede de alcance da nova regra é vasta. A Receita Federal endureceu o cerco sobre prestadoras de serviços que operam no exterior, mas que atendem clientes brasileiros. Independentemente de haver impostos a pagar ou não, essas plataformas agora precisam reportar suas atividades. É uma exigência desenhada para eliminar zonas cegas no mercado digital.
Com 185,7 milhões de transações registradas ao longo dos anos, a maturidade do setor é inegável. O que começou como uma curiosidade tecnológica tornou-se o principal canal de entrada e saída de recursos no mundo cripto nacional. Agora, com a chegada da DeCripto, essa movimentação bilionária ganha um nível de visibilidade inédito, fechando o cerco sobre operações que, até pouco tempo atrás, operavam à margem da supervisão direta do Estado.











