Baixo Guandu (ES) – O torcedor brasileiro que se prepara para assistir aos jogos da Copa do Mundo divide sua atenção com uma presença quase inevitável: a publicidade massiva das plataformas de apostas online. Esse assédio comercial, que ganha força com o apelo emocional do torneio, acendeu um sinal de alerta no Instituto de Defesa do Consumidor (Idec). O órgão adverte que a paixão nacional pelo futebol virou um motor potente de indução ao jogo, atraindo desde apostadores frequentes até pessoas em situação de vulnerabilidade social.
O tamanho desse mercado impressiona. Projeções da multinacional de tecnologia Softswiss indicam que o torneio atual pode registrar uma alta de pelo menos 50% no volume global de apostas esportivas em relação à edição anterior, realizada em 2022. Em termos financeiros, a movimentação mundial deve saltar de aproximadamente US$ 35 bilhões para um potencial de US$ 52 bilhões.
Esse salto é impulsionado por mudanças estruturais promovidas pela Fifa. A entidade máxima do futebol ampliou o formato da competição para esta edição, passando de 32 para 48 seleções, o que elevou o total de partidas de 64 para 104. Nesse cenário de expansão, estima-se que os brasileiros respondam por cerca de 10% de todo o volume apostado no planeta — uma fatia que tende a crescer se a seleção nacional avançar na competição.
No plano doméstico, os números confirmam a tendência de alta. O Placar das Bets, ferramenta mantida pela empresa de análise de dados Klavi com informações obtidas via Open Finance, revela que os brasileiros gastaram R$ 530,21 milhões em palpites eletrônicos desde o dia 9 de junho, dois dias antes da abertura oficial do evento. O gasto médio individual, que era de R$ 188 antes da Copa, disparou para R$ 242 em uma única quinta-feira, dia 25.
Riscos à saúde e à economia
Para o Idec, essa escalada de gastos aponta para um cenário preocupante de saúde pública e desequilíbrio social. O instituto, que defende que o Supremo Tribunal Federal (STF) declare inconstitucionais as leis de 2018 e 2023 que permitiram e regulamentaram o setor, avalia que as regras publicitárias atuais são frágeis. O órgão critica a forma como influenciadores, atletas e clubes naturalizam o jogo como diversão fácil e lucrativa, ignorando problemas severos como o superendividamento e o comprometimento da renda básica das famílias.
A exploração dos sentimentos do torcedor é explicada pela psicologia comportamental. Ahmed El Khatib, professor e doutor em finanças da Unifesp, detalha que grandes eventos reduzem os freios racionais do consumidor, gerando o que a ciência chama de “ilusão de controle”. O torcedor acredita que consegue prever desfechos como cartões ou escanteios por conhecer bem os atletas, esquecendo-se de que se trata de um jogo de azar.
O impacto financeiro transborda para o varejo. Dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC) apontam que, entre janeiro e março de 2023, a inadimplência decorrente de apostas retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista. Embora El Khatib pondere que o setor gera tributos e patrocina mais de metade dos clubes de futebol da série A no país, ele destaca que a maior parte desse dinheiro apenas redistribui riqueza dos perdedores para os ganhadores, sem gerar bens reais para a economia.
A saída, aponta o especialista, passa por uma regulação rígida semelhante à aplicada ao tabaco e ao álcool, incluindo campanhas permanentes de educação financeira, travas de segurança por inteligência artificial para bloquear perfis de apostadores compulsivos e maior transparência sobre as chances reais de ganho. Procurada para comentar as preocupações do setor, a Associação de Bets e Fantasy Sport (Abfs) não retornou os contatos.











