Serra (ES) – A desigualdade social no Brasil ultrapassa as barreiras da renda e se entranha nas estruturas de poder do Estado. Um relatório divulgado recentemente traz um diagnóstico alarmante sobre como a concentração de riqueza opera na prática: ao ocupar postos estratégicos na administração pública e no Legislativo, indivíduos com alto poder econômico conseguem influenciar a criação de normas e leis que protegem seus próprios privilégios, impedindo uma distribuição de recursos mais justa para o restante da população.
O estudo, que mergulha nas dinâmicas de poder e privilégio no país, indica que a democracia brasileira enfrenta um processo de captura por parte de elites que monopolizam recursos jurídicos e simbólicos. Esse fenômeno não é recente; ele é alimentado por uma formação histórica marcada pela escravidão e pela concentração fundiária, elementos que permitiram às classes dominantes se reorganizarem a cada ciclo de modernização, mantendo o controle sobre as decisões que afetam a vida coletiva.
Dados do Global Wealth Report 2026, elaborado pelo banco suíço UBS, colocam o Brasil em quarto lugar no ranking mundial de desigualdade patrimonial. Enquanto cerca de 386 mil brasileiros detêm status de milionários em dólar, a grande maioria da população adulta permanece na base da pirâmide, com um patrimônio médio limitado a 51 mil reais. Mesmo com a saída de 9 milhões de pessoas da linha da pobreza, a estrutura tributária continua penalizando mais os pobres do que os ricos, criando um sistema de blindagem que perpetua esse abismo social.
O ambiente digital tem sido um terreno fértil para essa concentração. Corporações de tecnologia e plataformas de apostas, as chamadas Big techs e Bets, exploram a ausência de regulamentação rigorosa para maximizar ganhos. O relatório ressalta que essas entidades, longe de serem apenas plataformas de entretenimento, atuam como mecanismos potentes de extração econômica e controle social, dificultando ainda mais o equilíbrio nas relações de poder.
O perfil de quem toma as decisões no Brasil é, conforme aponta o levantamento, predominantemente branco, masculino e rico. Essa disparidade fica explícita nos processos eleitorais. Nas eleições de 2024, apenas 13,2% dos municípios brasileiros foram conquistados por mulheres. No cenário nacional, a Câmara dos Deputados e o Senado seguem com uma representação feminina extremamente reduzida, o que demonstra que a política institucional falha em refletir a real diversidade da sociedade brasileira.
O dinheiro tem atuado como um filtro severo nas urnas. O estudo revela que, entre os candidatos ao Senado em 2022, nenhum dos postulantes que declararam patrimônio de até 100 mil reais foi eleito. Em contrapartida, os candidatos milionários, embora representassem 38% dos concorrentes, abocanharam 55% das vagas disponíveis. Isso sinaliza que o processo eleitoral funciona, em muitos casos, como uma triagem socioeconômica onde o patrimônio privado se traduz em vantagem competitiva imediata para a ocupação de mandatos.
Para os pesquisadores, a democracia sofre quando o poder econômico não apenas participa do debate público, mas impõe as condições materiais para que outros grupos sequer consigam se manifestar. Esse desequilíbrio cria um abismo entre a igualdade formal, garantida na Constituição, e a influência efetiva nas decisões estatais. Enquanto uma elite restrita detém os meios para financiar equipes técnicas e influenciar a agenda parlamentar, a maior parte da sociedade vê suas demandas serem preteridas em prol da manutenção de estruturas fiscais e políticas altamente concentradoras.
A reversão desse cenário depende de mudanças estruturais profundas. O relatório sugere quatro pilares fundamentais para o enfrentamento: a promoção de uma reforma tributária que priorize a transparência e a justiça, a proteção da participação política contra a contaminação de interesses corporativos, o incentivo real à representação da diversidade social no Congresso e o fortalecimento do controle social sobre os gastos e conselhos deliberativos. Sem enfrentar as raízes patrimoniais e raciais da desigualdade, qualquer ganho pontual corre o risco de ser anulado.











