Guarapari (ES) – Às vésperas da definição do próximo comando do Poder Executivo nacional, o cenário político brasileiro assiste ao ressurgimento do protagonismo estudantil. Motivados pelo receio quanto à estabilidade das instituições democráticas e pelo destino das políticas voltadas ao ensino público, milhares de universitários e secundaristas ocupam espaços públicos em diversas cidades. A movimentação, articulada pela União Nacional dos Estudantes (UNE), ecoa episódios históricos de engajamento da categoria, como as manifestações contra a ditadura militar, o movimento pelas Diretas Já e o impeachment de Fernando Collor.
Para a presidente da entidade, Bianca Borges, o momento ultrapassa a dinâmica habitual de um pleito eleitoral, configurando-se como uma escolha decisiva sobre os rumos futuros do país. A dirigente aponta que a atual mobilização é uma reação direta ao que classifica como um risco real de retrocessos autoritários. A postura da UNE, segundo sua liderança, é a continuidade de uma trajetória iniciada desde a fundação da instituição, focada na preservação da soberania nacional e na proteção de direitos sociais conquistados.
Os desafios enfrentados no cotidiano acadêmico, notadamente o subfinanciamento das universidades e as barreiras que impedem a permanência de estudantes de baixa renda, figuram no centro da pauta das ruas. A defesa da educação pública é tratada pela organização como indissociável da preservação democrática. A UNE sustenta que a participação coletiva, consolidada em grêmios, centros acadêmicos e diretórios centrais, permanece como o instrumento fundamental para transformar reivindicações pontuais em direitos duradouros para a juventude.
Recentemente, a tentativa de restringir a liberdade de atuação de entidades estudantis na esfera digital foi frustrada pelo ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O magistrado negou uma solicitação da campanha do candidato Flávio Bolsonaro (PL) para suspender publicações de dezenas de dirigentes sindicais e de movimentos estudantis, entre eles a própria UNE, garantindo a manutenção da voz desses grupos no debate público.
Bianca Borges, estudante de letras no Instituto Federal de São Paulo (IFSP), assumiu a presidência da UNE para o biênio 2025–2027 trazendo uma trajetória iniciada ainda no ensino técnico em Praia Grande. Formada em direito pela Universidade de São Paulo (USP), onde teve passagem pela coordenação do DCE, ela consolidou sua atuação na resistência contra iniciativas de privatização e militarização da rede estadual paulista sob a gestão de Tarcísio de Freitas.
A pauta estudantil ganha contornos de urgência ao analisar as propostas de Flávio Bolsonaro para a educação. A sugestão de transferir a gestão das universidades federais do Ministério da Educação para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) é vista pela entidade como uma estratégia para submeter o ensino superior aos interesses exclusivos do mercado. A UNE argumenta que essa medida, somada ao histórico de críticas aos centros acadêmicos e a nomeações de reitores considerados interventores pela comunidade, revela uma agenda contrária à autonomia universitária e ao pensamento crítico.
Em contrapartida, a entidade oficializou apoio à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. A justificativa central é a defesa de um projeto de país que priorize o investimento no ensino público e na assistência estudantil. Mesmo reconhecendo que o diálogo com o atual governo pode envolver críticas e contradições, a liderança estudantil enfatiza que o cenário oferece condições superiores para a manutenção de canais de reivindicação e avanços na área educacional. A proposta de destinar 10% do PIB para a educação pública e a universalização de auxílios para estudantes carentes permanecem no horizonte das demandas do movimento.
O movimento estudantil projeta, agora, a continuidade das ações para além do dia 25 de outubro. Conforme a avaliação da presidência da UNE, a mobilização não se encerra nas urnas, independente do resultado. O desafio de encantar novos setores da juventude e manter o engajamento permanente é visto como a chave para garantir que o movimento permaneça longevo. O foco permanece na construção de uma universidade que funcione como um espaço de emancipação, integrando-se aos debates da classe trabalhadora, como a pauta pelo fim da escala de trabalho 6×1, que tem ressoado fortemente entre os jovens.











