Brasília (DF) – Ao som de “Cangoma me Chamou”, clássico imortalizado por Clementina de Jesus, um grupo de ativistas e lideranças negras ocupou Brasília nesta quarta-feira (26) para lançar o Manifesto Político das Mulheres Negras do Brasil: O Pacto do Bem Viver e as Eleições 2026. A iniciativa, coordenada pela Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), não é apenas um documento, mas uma convocação para que a gestão pública brasileira coloque a justiça social e a equidade no centro das decisões estruturais do país.
A proposta busca romper a barreira que, historicamente, restringe a atuação de mulheres negras à condição de beneficiárias de políticas públicas, reivindicando para elas o lugar de propositoras e gestoras. O texto do manifesto enfatiza que a presença de lideranças pretas e pardas nos poderes Executivo e Legislativo é uma prioridade absoluta para a construção de um projeto de nação democrático. A intenção é que a capacidade criativa e administrativa dessas mulheres seja finalmente reconhecida como um motor essencial para o desenvolvimento nacional.
Isabel Faroni, diretora do Instituto Akanni e representante da Região Sul na articulação, destaca a urgência de uma mudança no tom das discussões eleitorais. Para ela, o manifesto reflete o desejo de uma sociedade baseada na partilha justa e no cuidado mútuo. Essa visão é compartilhada por Jolúzia Batista, coordenadora nacional da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), que aponta o pacto como uma ferramenta de reparação histórica. Segundo ela, as diretrizes apresentadas servirão como régua para cobrar compromissos reais de candidatos e governantes, corrigindo desigualdades herdadas de séculos de escravidão.
A realidade dos números, contudo, ainda revela uma distância abismal entre a representação parlamentar e a demografia do Brasil. Dados do Tribunal Superior Eleitoral indicam que, nas Eleições Gerais de 2026, mulheres pretas representam apenas 6% das candidaturas totais, enquanto as pardas somam 12,2%. Esses indicadores contrastam drasticamente com os dados do IBGE, que situam as mulheres negras como quase 30% da população brasileira. A subrepresentação também se estende ao Judiciário, onde, conforme o Ministério Público Federal, apenas 0,7% dos membros em todo o país são mulheres negras.
Nádia Estela Ferreira Mateus, promotora de Justiça em Minas Gerais, avalia que o manifesto é uma provocação necessária sobre o futuro da democracia. Para a promotora, debater o bem viver é questionar, fundamentalmente, quais sujeitos a sociedade brasileira pretende valorizar na construção do seu destino. Paralelamente, o grupo denunciou o que chamou de guerra híbrida contra direitos humanos. Janira Sodré, coordenadora executiva da AMNB, alerta para a estratégia do tecno autoritarismo, onde algoritmos de plataformas digitais moldam o debate político e enfraquecem conquistas sociais através de narrativas de ultradireita.
A estratégia de resistência proposta pelas ativistas envolve um pacto intergeracional, unindo mulheres pioneiras a jovens lideranças. Caiene Reinier Freitas, engenheira e mestranda, exemplifica essa ocupação. Como mulher trans negra, ela destaca que a entrada em espaços de poder é a materialização de vivências que o Estado insiste em invisibilizar. Diante de um cenário de violência estrutural, a ocupação de universidades e parlamentos surge como uma estratégia de sobrevivência e transformação política, reafirmando que o exercício da cidadania deve ser amplo, plural e, acima de tudo, representativo.












