Iúna (ES) – O eleitor brasileiro chega ao segundo turno, neste domingo, diante de dois projetos de nação que divergem frontalmente sobre o tamanho e o papel da máquina pública. Enquanto Flávio Bolsonaro defende a retomada das privatizações e uma redução profunda na estrutura administrativa, Luiz Inácio Lula da Silva aposta na manutenção das estatais como motores de desenvolvimento e na eficiência por meio da digitalização e do controle rigoroso de gastos.
No campo de Flávio Bolsonaro, a proposta central é o que ele classifica como tesouraço. O plano prevê um corte generalizado de despesas, a redução do número de ministérios e a desoneração de setores produtivos por meio de uma ampla desregulamentação das normas infralegais trabalhistas, tributárias e previdenciárias. A estratégia inclui retomar o Programa Nacional de Desestatização, vendendo ativos considerados não estratégicos para abater o endividamento público e atrair o capital privado.
O candidato também defende a profissionalização das agências reguladoras com critérios técnicos rígidos para a nomeação de dirigentes e propõe a adoção da Lei das Estatais de 2016 como balizadora dessas indicações. A base dessa plataforma é a experiência recente do governo de seu pai, Jair Bolsonaro, que, ao longo de quatro anos, privatizou cerca de 76 empresas públicas, incluindo subsidiárias e estruturas completas. A venda da Eletrobras, em junho de 2022, por R$ 33,7 bilhões, permanece como o marco mais significativo desse processo.
Do outro lado, o programa de Lula sustenta que as empresas estatais são ferramentas essenciais para a soberania nacional e para induzir o crescimento econômico. O plano veta a desestatização de nomes estratégicos como Petrobras, Embrapa e Correios. Em vez de vender, a proposta foca na reestruturação financeira dessas companhias e na ampliação do Repetro, regime fiscal especial voltado a estimular a cadeia de óleo, gás e hidrocarbonetos.
A gestão do petista prioriza o fortalecimento do Estado por meio da transformação digital. A meta é universalizar serviços personalizados na plataforma Gov.br, que hoje já concentra mais de 5 mil serviços federais, visando aumentar a eficiência administrativa. O documento também detalha medidas de combate à corrupção, prometendo investigar e responsabilizar agentes públicos e privados com foco na integridade das instituições.
Historicamente, a postura de Lula se diferencia pela preferência por concessões e parcerias público-privadas, especialmente em infraestrutura, em vez da venda definitiva de ativos. Durante as gestões do Partido dos Trabalhadores, esse modelo foi amplamente aplicado em rodovias, portos e no setor aeroportuário, incluindo grandes terminais como Guarulhos, Brasília e Galeão. A lógica consiste em permitir que a iniciativa privada explore o serviço por um período determinado, mantendo a titularidade pública do bem.
O embate nas urnas encerra um ciclo de discussões sobre o alcance da administração federal. Enquanto o modelo de Flávio Bolsonaro busca um Estado mais enxuto e orientado pelo mercado, a proposta de Lula concentra esforços na recuperação da capacidade de investimento das estatais e na utilização das novas tecnologias como meio para elevar o padrão do serviço público entregue ao cidadão.












