Vitória (ES) – Um teste realizado pela Anistia Internacional expôs lacunas críticas nos mecanismos de filtragem do Facebook para anúncios com desinformação eleitoral. A análise, divulgada nesta terça-feira (25), ocorreu a exatos 40 dias do primeiro turno das eleições gerais de 4 de outubro. O levantamento revelou que mais da metade das 14 publicações com teor antidemocrático enviadas à rede social teve sua programação aceita pela plataforma, que pertence à empresa americana Meta.
Para o experimento, a ONG submeteu 15 anúncios pagos, todos escritos em português e direcionados ao público brasileiro a partir de 16 anos. Apenas um conteúdo era classificado como neutro, enquanto os demais continham desinformação deliberada estruturada em três estratégias principais: a deslegitimação do sistema eleitoral, a construção de adversários políticos como inimigos da nação e a apologia ao autoritarismo sob a justificativa de segurança pública.
Um dos materiais, por exemplo, solicitava abstenção dos eleitores para que militares pudessem retomar o poder. Esse tipo de narrativa já foi desmentida diversas vezes pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O levantamento apontou que oito dessas peças foram aprovadas para veiculação. Os outros sete anúncios, incluindo o de caráter neutro, acabaram rejeitados por protocolos de verificação de identidade, e não por apresentarem conteúdo falso, o que reforça a crítica da organização sobre a falta de eficácia dos filtros de moderação.
Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil, classificou como alarmante o fato de o sistema não ter detectado o conteúdo nocivo. A organização pontuou que o lucro da Meta está diretamente atrelado a sistemas de publicidade que permitem a disseminação desse material. Além da falha na triagem, os pesquisadores demonstraram preocupação com o fato de os anúncios terem sido programados a partir de Londres, sem o uso de ferramentas para ocultar a localização, o que sugere um risco constante de interferência externa.
Ummar Bashir, pesquisador de Inteligência Artificial e Direitos Humanos da ONG, questionou a confiabilidade das salvaguardas eleitorais da empresa. Em resposta, a Meta afirmou que o estudo se baseou em uma amostra reduzida de anúncios que nunca chegaram a ser exibidos aos usuários. A companhia sustentou que possui múltiplas camadas de proteção e que investe recursos expressivos para assegurar a integridade do processo eleitoral de 2026 no Brasil.
O cenário é monitorado de perto pelo TSE, que estabelece, por meio de resoluções, que as plataformas digitais possuem o dever de impedir ou reduzir a circulação de fatos notoriamente inverídicos. A norma prevê que conteúdos que descredibilizem o sistema eletrônico de votação sejam removidos pelos próprios provedores, independentemente de uma ordem judicial específica, visando proteger a lisura do pleito contra campanhas de desinformação.











