Washington, Estados Unidos – Chega ao limite nesta quarta-feira (15) o cronograma fixado pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) para decidir se aplicará ou não uma sobretaxa de 25% sobre diversos itens importados do Brasil. O cenário atual, contudo, carece de sinais de um entendimento diplomático, com ambos os lados mantendo posições rígidas em pontos que consideram estratégicos para suas economias.
O nó das negociações envolve exigências cruzadas. De um lado, Washington cobra ajustes na operação do Pix e mudanças nas tarifas de importação do etanol americano. De outro, o governo brasileiro resiste a essas demandas enquanto busca, sem sucesso, uma contrapartida: a redução da pesada sobretaxa que os EUA aplicam ao açúcar brasileiro — que chega a quase 100%.
Para analistas, a medida ultrapassa a esfera estritamente comercial e ganha contornos de estratégia geopolítica. A avaliação é de que o tarifaço funciona como uma alavanca para alinhar o Brasil à doutrina de Washington para a América Latina, uma espécie de atualização da Doutrina Monroe focada em conter a presença da China no Hemisfério Ocidental. Paulo Borba Casella, professor de direito internacional da USP, observa que o governo americano não faz questão de ocultar o caráter político da ameaça. Para ele, o uso da Seção 301 da legislação dos EUA, que justifica retaliações sob o pretexto de “práticas desleais”, é uma forma clara de interferir na agenda interna brasileira.
O realinhamento regional é, segundo o professor de relações internacionais Alexandre Pires, do Ibmec-SP, o objetivo de fundo. A Casa Branca enxerga com preocupação o fortalecimento dos laços entre Brasília e Pequim nas últimas duas décadas. Em um momento de maior escrutínio global, o governo americano busca forçar a eliminação de barreiras para suas próprias empresas, embora especialistas apontem que tais mudanças sejam de difícil implementação no curto prazo.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, rebateu formalmente as acusações do USTR. Em sua avaliação, a imposição de novas tarifas não apenas oneraria uma relação comercial sólida para ambos os países, mas também fecharia portas para um diálogo construtivo. O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, reforçou que o setor sucroenergético é vital, especialmente para o Nordeste, e classificou como desproporcional a cobrança por facilidades ao etanol dos EUA enquanto o açúcar brasileiro enfrenta barreiras intransponíveis no mercado americano.
A resistência à abertura total para o etanol americano também conta com o apoio de entidades como a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). O argumento central desses produtores é que a queda no volume de etanol importado dos EUA deve-se ao crescimento da própria produção nacional, e não a manobras tarifárias. Para Casella, a recusa brasileira em ceder sobre o etanol sem uma compensação real no açúcar demonstra que o impasse é reflexo de uma divergência política profunda, onde a negociação baseada em interesses mútuos parece cada vez mais distante.












