Bogotá, Colômbia – A gestão do presidente colombiano Abelardo de la Espriella determinou o fim da produção jornalística nas 20 Emissoras da Paz, rede de comunicação originalmente estabelecida pelo Acordo de Paz firmado em 2016 com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Sob a nova diretriz, o conteúdo informativo, que antes ocupava a grade horária dessas estações, foi substituído por uma programação composta exclusivamente por músicas, com sinal centralizado a partir de Bogotá.
O Ministério da Tecnologia, Inovação e Comunicações, responsável pela Inravisón — entidade que gere o sistema público de comunicação do país — justificou a alteração como parte de uma reforma estrutural. Segundo a pasta, o objetivo é promover uma transformação integral no sistema para assegurar um caráter que definem como mais público, plural e independente. O governo sustenta que o antigo modelo jornalístico consumia cerca de 90% dos recursos financeiros e do quadro de pessoal disponível, além de ter classificado a produção anterior como um aparato de propaganda voltado a interesses políticos específicos.
A medida, contudo, enfrenta forte oposição de organizações especializadas. A Fundação para a Liberdade de Imprensa, a Missão de Observação Eleitoral e a Associação Mundial de Rádios Comunitárias emitiram um comunicado conjunto contestando o fechamento dos noticiários. As entidades alertam que a decisão impacta diretamente mais de 463 mil pessoas residentes em áreas rurais, comunidades indígenas, afrodescendentes e camponesas. Para esses grupos, as rádios representam o principal, e muitas vezes o único, canal de acesso a informações locais e notícias de interesse público em territórios historicamente marcados por décadas de conflito armado.
O funcionamento dessas emissoras é previsto no Ponto 6.5 do Acordo de Paz de 2016, que estabelece como função precípua a divulgação dos avanços na implementação dos termos pactuados, o fomento à educação para a convivência e a oferta de espaços de diálogo para populações afetadas pela guerra. Críticos da decisão governamental argumentam que a mudança ignora a natureza fundamental desses veículos, concebidos justamente para operar em regiões vulneráveis que sofrem com a carência de serviços básicos.
O cenário de concentração midiática na Colômbia, onde três grandes conglomerados empresariais dominam o setor, intensifica a preocupação de especialistas sobre a medida. Dados da Repórteres Sem Fronteiras indicam que 60% do território colombiano já enfrenta ausência de cobertura de mídia local, um hiato que as Emissoras da Paz ajudavam a preencher. A iniciativa do governo Espriella tem sido comparada a movimentos recentes de outros países da região, como a política de comunicação adotada pela administração de Javier Milei na Argentina em 2024, que resultou no fechamento da agência pública Télam.
O modelo de comunicação pública na América Latina, inspirado em diretrizes europeias, foi desenhado para suprir lacunas deixadas pelo interesse comercial. A proposta é garantir que a população receba conteúdos que, por critérios de mercado, muitas vezes não seriam contemplados pelas empresas privadas de radiodifusão. A disputa em torno do papel da Inravisón revela, portanto, um embate profundo sobre a função social do Estado e o controle sobre os fluxos de informação em uma democracia marcada por polarizações ideológicas.







