Vitória (ES) – Dez anos após ganhar os holofotes como o carismático Fuleco na Copa do Mundo de 2014, o tatu-bola (Tolypeutes tricinctus) enfrenta um destino muito menos festivo. O animal, que é uma espécie exclusivamente brasileira, permanece classificado como “em perigo” pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Longe dos estádios, a luta pela sua sobrevivência acontece agora nos bastidores de um novo plano estratégico que deve ser lançado ainda este ano.
O desafio é monumental. Endêmico da Caatinga, o tatu-bola encontra-se acuado pela expansão desenfreada de projetos energéticos — como parques solares e turbinas eólicas — e pelo avanço constante da fronteira agrícola. Flávia Miranda, coordenadora científica do Programa de Conservação do Tatu-bola, aponta que as fazendas solares, instaladas frequentemente em áreas de encosta, fragmentam o terreno e impedem a regeneração da vegetação necessária para a manutenção do ciclo de vida da espécie.
Além da perda de habitat, o animal enfrenta pressões históricas. Em comunidades rurais, a caça predatória e de subsistência ainda é uma ameaça, embora o cenário esteja mudando através da educação ambiental. Lourisvaldo Camilo, um sertanejo que atua no Projeto Ecologia e Conservação Participativa na Chapada Diamantina, na Bahia, relata a transformação cultural: “Quando eu era criança, em momentos de necessidade, a caça era uma forma de sobrevivência. Hoje, entendemos que o tatu-bola é parte da nossa natureza e tem o direito de existir”.
O governo federal busca conter a degradação por meio da ampliação de unidades de conservação, como os 92 mil hectares adicionados ao Parque Nacional da Serra das Confusões, no Piauí, em junho passado. Contudo, a simples criação de parques não basta. O biólogo Felipe Melo, da Universidade Federal de Pernambuco, critica a ineficiência administrativa. Ele cita o Refúgio de Vida Silvestre Tatu-bola, em Pernambuco: 11 anos após sua criação, a unidade ainda carece de um plano de manejo, tornando-se, nas palavras do especialista, uma área protegida apenas no papel.
Para mudar esse quadro, o ICMBio prepara o PAN Tatá, um plano de ação focado na conservação do tatu-bandeira, do tatu-canastra e do tatu-bola. O cronograma de cinco anos prevê mapeamento genético e combate direto ao atropelamento e à caça ilegal. A estratégia também quer transformar propriedades rurais privadas em corredores ecológicos, essenciais para que o animal possa circular e se reproduzir.
O papel do tatu-bola na natureza é o de um verdadeiro engenheiro do ecossistema. Ao cavar tocas e revolver o solo, ele auxilia na fertilização e na regeneração da Caatinga. Sua carapaça, capaz de transformá-lo em uma bola impenetrável contra predadores naturais, torna-se sua maior vulnerabilidade diante de humanos, que podem capturá-lo facilmente. A pergunta que paira sobre a conservação é se as novas políticas virão a tempo de garantir que o tatu-bola continue a ser mais do que uma lembrança esportiva do passado.












