Sobradinho (DF) – O som do apito inicial na próxima segunda-feira, quando o Brasil encara o Japão na fase eliminatória, terá um significado singular para Simão Ribeiro da Silva. Aos 91 anos, este eletricista e diácono aposentado, que ajudou a erguer a capital federal, prepara-se para acompanhar sua vigésima edição do Mundial. Entre a memória do choque em 1950 e a euforia pelo tricampeonato, ele não hesita: a seleção atual tem fôlego para buscar o sexto título.
Nascido em Cristino Castro, no Piauí, Simão acumulou, ao longo de nove décadas, histórias que se confundem com a própria evolução da cobertura esportiva. Hoje morador de Sobradinho, no Distrito Federal, ele olha para o elenco atual e vê uma equipe equilibrada. Sem medo de errar na aposta, o torcedor reforça que os atletas brasileiros não devem nada aos rivais estrangeiros. Para ele, o hexacampeonato é uma questão de tempo.
Do rádio de válvula às telas coloridas
A experiência de acompanhar o esporte mudou drasticamente para o patriarca de uma família que hoje soma dezenas de descendentes, entre filhos, netos e bisnetos. Em meados do século passado, nos tempos de garimpo, a emoção dependia estritamente da voz dos narradores nos antigos rádios de válvula com carcaça de madeira. Eram raros os aparelhos disponíveis, e o clima de apreensão em 1950, na derrota para o Uruguai, ainda está vivo em sua memória como uma verdadeira calamidade nacional.
Com o avanço da tecnologia, o ritual de torcer transformou-se. Em 1970, durante a campanha vitoriosa no México, Simão protagonizou uma cena clássica de vizinhança. Dono de um dos poucos televisores a cores da região, ele percebeu que sua sala já não comportava a quantidade de entusiastas que queriam ver Pelé e Jairzinho em campo.
A solução foi levar o aparelho para a calçada. Com bancos improvisados e cadeiras trazidas pelos vizinhos, ele criou o que chamou de um pequeno cinema de rua. Aquele ambiente de festa, regado à vibração coletiva pelo tricampeonato, marcou um contraste profundo com a era em que a imagem das TVs mal se definia, cheia de sombras e falhas de antena.
Para quem já viu de tudo um pouco, desde o susto no Maracanã até a conquista do penta em 2002, a rotina de torcedor não perdeu o viço. O otimismo de Simão não é apenas saudosismo; é o testemunho de quem atravessou gerações vendo o futebol ser o ponto de convergência de todo um país.










