Rio de Janeiro (RJ) – O jejum de mais de duas décadas sem um título mundial não foi capaz de apagar o hábito mais colorido do futebol brasileiro. Às vésperas da Copa do Mundo de 2026, as calçadas e o asfalto do Rio de Janeiro voltam a servir de tela para uma tradição urbana que resiste ao tempo. Longe de ser apenas um capricho estético, a pintura das vias resgata a convivência entre vizinhos em uma era cada vez mais digital e individualista.
Tradição de quatro décadas em Vila Isabel
Na Zona Norte carioca, a tradicional Rua Pereira Nunes ostenta uma história que começou ainda na Copa de 1978 e segue sem interrupções. Ali, a decoração é tratada com o rigor de um grande projeto de engenharia. Celso Mendes, de 48 anos, lidera a “Galera da Pereira Nunes” desde 1994 e revela que o planejamento para o torneio seguinte começa assim que o atual termina. Ao lado do desenhista Rodrigo Habbib, ele coordena um esforço de quatro anos que atrai turistas e agita o comércio local. A rua já venceu quatro concursos municipais de ornamentação e busca o pentacampeonato paralelo ao da Seleção Brasileira.
Afeto e pertencimento no Morro do Pinto
No Centro da cidade, a mobilização da Rua Capiberibe, no Morro do Pinto, teve outra motivação: criar memórias afetivas para crianças da comunidade que nunca viram o Brasil levantar a taça. Coordenada por Isabel Boechat, vice-presidente do Centro Cultural Capiberibe 27, a ação transformou o mutirão em um evento social que atraiu moradores da Providência e de Santo Cristo. Com doações de parceiros e o suporte essencial de comerciantes locais — que garantiram almoço, lanches e picolés —, as pinceladas deixaram de ser apenas tinta para virarem sinônimo de pertencimento.
Superação e arte urbana no Morro do Turano
A energia das escadarias do Morro do Pinto atravessou a cidade e inspirou o universitário Silvio Rosa, de 21 anos, morador do Morro do Turano. Junto com a namorada Taíssa Brito e a artista Anunki, ele decidiu dar uma nova cara à Alameda Manoel Costa. O grupo enfrentou a desconfiança inicial de alguns moradores e a falta de doações de materiais, mas encontrou força nas crianças da comunidade, que assumiram os pincéis com entusiasmo. O esforço coletivo acabou inscrito no concurso “Meu Beco na Copa”, promovido pelo projeto Favela Radical.
Estímulo financeiro para a folia de rua
Para incentivar essas manifestações populares, a Prefeitura do Rio de Janeiro lançou o edital “Acreditar é uma Arte – O Rio nas Cores do Hexa”. A iniciativa vai premiar os projetos mais criativos: o primeiro colocado receberá R$ 50 mil, o segundo R$ 30 mil e o terceiro R$ 20 mil. As inscrições pela Secretaria Municipal de Cultura foram prorrogadas até o dia 20 de junho. Mas, independentemente da premiação em dinheiro, a tinta fresca no asfalto prova que a união comunitária continua sendo o maior legado cultural do torneio no país.












