Filadélfia, Estados Unidos – O palco está montado na Filadélfia. Nesta sexta-feira (19), às 21h30, o Brasil encara o Haiti pela segunda rodada do Grupo C da Copa do Mundo. Para os haitianos, o duelo é muito mais do que uma partida de futebol: é o retorno ao palco principal do esporte após 50 anos de ausência, um feito que desafia a gravidade de uma crise humanitária e política que insiste em assombrar o país.
A preparação para o jogo, contudo, foi marcada por um atrito simbólico. Por determinação da Fifa, a seleção caribenha precisou remover referências à luta anticolonial de seu uniforme. O episódio, interpretado por historiadores como uma tentativa de silenciar a memória da Revolução Haitiana de 1804, gerou indignação. Enquanto os Estados Unidos exibem símbolos de sua própria independência, o Haiti é forçado a esconder a sua, revelando um desequilíbrio nas hierarquias que governam o futebol global.
Dentro das quatro linhas, a disparidade é evidente. O Brasil ocupa a sexta posição no ranking da Fifa, enquanto o Haiti figura na lanterna. Mas o meia Jean-Ricner Bellegarde, após a derrota por 1 a 0 para a Escócia no último sábado, mantém o otimismo: o time dominou a posse de bola durante boa parte do confronto e provou que consegue competir em alto nível.
O histórico entre as duas nações é denso. Em 2004, o “Jogo da Paz” levou Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho a Porto Príncipe para um amistoso que, por algumas horas, silenciou o som dos conflitos armados nas ruas. Carlos Alberto Parreira, técnico na época, guarda na memória as imagens de uma multidão em êxtase, esquecendo a fome e a guerra diante de seus ídolos brasileiros. Hoje, essa admiração mudou de mãos e se concentra nos novos heróis, como o artilheiro Duckens Nazon.
A relação Brasil-Haiti extrapolou o campo esportivo após o terremoto de 2010, que deixou um rastro de destruição e 200 mil mortos. Desde então, o fluxo migratório e os pedidos de refúgio tornaram o Brasil um novo lar para milhares de haitianos. Esse elo, no entanto, é complexo e não apaga as marcas deixadas pela Missão das Nações Unidas, comandada por militares brasileiros, que enfrentou denúncias de violações de direitos humanos e abusos ao longo dos anos.
Sob o comando do primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé, o Haiti hoje vive sob a sombra de grupos armados que controlam a capital. Enquanto o país luta para se estabilizar, o futebol surge como um breve suspiro. Para os jogadores, conhecidos como Les Grenadiers, o desafio contra o Brasil é a chance de mostrar que, mesmo em meio aos escombros da crise, ainda existe espaço para a resistência e a celebração.










