Brasília (DF) – O acesso às urnas para brasileiros com mobilidade reduzida, incluindo idosos com dificuldades de locomoção, revela um cenário de desigualdade territorial no Brasil. Um mapeamento realizado pelo data8 sobre a implementação do programa Seu Voto Importa aponta que, enquanto São Paulo e Minas Gerais concentram centenas de municípios engajados na iniciativa, estados como Amazonas e Mato Grosso do Sul ainda não adotaram o serviço. A disparidade coloca em xeque a universalidade de uma política desenhada para garantir que a falta de transporte não impeça o exercício da cidadania.
Instituído pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por meio da Resolução 23.753/2026, o programa orienta os Tribunais Regionais Eleitorais a oferecer suporte de transporte a eleitores que dependem de auxílio para chegar à seção de votação. O prazo para solicitar esse suporte junto aos cartórios eleitorais, ou pelos canais digitais dos TREs, encerra-se nesta segunda-feira (14). A análise individual de cada pedido considera o grau de limitação funcional do solicitante, a oferta de transporte público na região e a distância percorrida, respeitando as limitações orçamentárias de cada tribunal.
Um dos obstáculos centrais identificados pelos especialistas reside na comunicação da norma. Embora o texto legal reconheça pessoas idosas com dificuldade de deslocamento como público-alvo, a linguagem técnica pode gerar um distanciamento. Muitos cidadãos, ao atingirem os 75 ou 80 anos, não se autoidentificam automaticamente como detentores de mobilidade reduzida, o que acaba por ocultar a disponibilidade do benefício para quem mais necessita. Essa barreira informativa soma-se ao fato de que, a partir dos 70 anos, o voto torna-se facultativo no Brasil, alterando a dinâmica de participação democrática.
O impacto da invisibilização deste público é quantificável. Atualmente, o país contabiliza 16 milhões de eleitores acima dos 70 anos, representando mais de 10% do total de cidadãos aptos a votar. O levantamento destaca que, nas eleições de 2022, esse segmento respondeu por 8 milhões das abstenções registradas — um índice que chega a quase 60% dentro da faixa etária. Para além da logística de transporte, existe um desafio subjetivo: combater a sensação de exclusão social que leva muitos idosos a acreditarem que sua opinião política perdeu relevância ou validade.
O Movimento Voto 70+, que coordenou o levantamento, argumenta que a existência de uma política pública nacional é um passo necessário para remover barreiras físicas e burocráticas. No entanto, o diagnóstico aponta que oferecer o transporte é apenas uma parte da equação. Incentivar a participação requer um esforço contínuo para reverter a percepção de desimportância que frequentemente atinge esse contingente populacional, reforçando que a experiência acumulada por essa geração permanece sendo um ativo valioso para o debate público e para o futuro do país.












