Brasília (DF) – O senador Coelho e Campos subiu à tribuna em 1891 para decretar que sua esposa jamais pisaria em uma urna. No mesmo ano, Serzedelo Corrêa, também parlamentar, sentenciou que inserir mulheres no debate público seria condená-las à perda da própria santidade. O tempo avançou 135 anos, mas o repertório de intimidação pouco mudou. Em 2026, figuras públicas como o influenciador Paulo Figueiredo retomam argumentos que pareciam enterrados, alegando que o voto feminino seria, estatisticamente, um erro ou apenas um reflexo da vontade de maridos.
Para especialistas em direitos das mulheres, o fenômeno não tem nada de inédito. O que choca, contudo, é a resiliência dessa lógica patriarcal. Fernanda Abreu, professora de direito na Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), observa que a linguagem pode ter se sofisticado, mas a estrutura que sustenta a misoginia permanece intocada. O que assistimos hoje é uma forma de retaliação — o chamado backlash — sempre que avanços na cidadania feminina alcançam novos patamares.
A Constituição de 1891 foi a primeira a negar formalmente o sufrágio às mulheres, sob a justificativa cínica de que elas não possuíam intelecto para as lides políticas. Ao longo das décadas, o cenário mudou pela força da pressão social. Nomes como Leolinda Daltro, fundadora do Partido Republicano Feminino, e Bertha Lutz, estrategista que articulou governadores e diplomatas, lideraram uma resistência que não veio de concessões, mas de um enfrentamento exaustivo. Em 1917, noventa mulheres marcharam pelo centro do Rio de Janeiro desafiando a ridicularização da imprensa, que as retratava como “mulheres-homens” ou arruaceiras.
Hoje, o Brasil conta com 83,8 milhões de eleitoras, representando pouco mais de 53% do eleitorado total. Esse peso demográfico, porém, não imuniza as brasileiras contra investidas reacionárias. Segundo Cibele Tenório, da Universidade de Brasília (UnB), mesmo discursos que parecem marginais podem criar um clima de desestímulo, minando a confiança das mulheres em seu próprio poder de decisão. O perigo real não é apenas a revogação de leis — o que seria uma violação direta do Artigo 14 da Constituição de 1988 —, mas a contínua tentativa de colocar a mulher de volta ao papel exclusivo de cuidadora.
A historiadora Ana Prestes lembra que a estratégia dos opositores do século passado era visual: charges de jornais mostravam o homem no tanque de lavar roupas enquanto a mulher vestia ternos, como forma de ridicularizar qualquer tentativa de igualdade. A desmoralização era o mecanismo de controle preferencial. Esse passado, infelizmente, não está morto. A dependência financeira, que outrora era exigência legal no Código Eleitoral de 1932 — que chegou a pedir autorização do marido para que a mulher votasse —, hoje se manifesta de forma mais velada através da disparidade salarial e do desestímulo à ocupação de espaços de poder.
A conquista do sufrágio no Brasil consolidou-se em 1932 com o primeiro Código Eleitoral a permitir o voto secreto feminino, ratificado dois anos depois. No entanto, a trajetória mostra que direitos não possuem perenidade automática. Como destaca a economista Hildete Pereira, da Universidade Federal Fluminense (UFF), a estrutura social brasileira ainda direciona a mulher para a esfera doméstica, dificultando uma representatividade política plena. O machismo estrutural atua como uma barreira que tenta, a todo custo, impedir que a maioria populacional do país se torne, de fato, a maioria decisória.
Para as pesquisadoras, a lição deixada pelas sufragistas das primeiras décadas do século 20 permanece urgente. Elas utilizavam a educação, jornais próprios e alianças estratégicas para desmantelar preconceitos. Em um cenário onde a legislação protege o voto universal, mas o discurso público ainda flerta com o retrocesso, a memória dessas lutas é a principal ferramenta de resistência. O desafio atual é garantir que o debate político não seja sequestrado por tentativas de invisibilizar o protagonismo feminino, sob pena de retrocedermos a um tempo em que a voz da mulher era considerada um incômodo ao bom andamento da pátria.












