Carauari (AM) – Aldeniza Silva e Silva, grávida de sete meses, costumava medir o tempo de sua gestação não apenas em semanas, mas na perigosa jornada fluvial até a sede de Carauari, no Amazonas. Para realizar um simples pré-natal, ela precisava enfrentar até três dias de viagem em uma pequena embarcação, a rabeta, dependendo do nível do Rio Juruá. Sem estradas que cortem a floresta, o curso das águas impõe um isolamento geográfico que afasta os moradores da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Uacari dos serviços mais elementares do Sistema Único de Saúde (SUS). Aldeniza, que deveria ter feito ao menos seis consultas de rotina, mal havia conseguido comparecer a três antes da recente mudança em sua realidade local.
A inauguração de dois polos de atendimento de saúde nas bases da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) — localizados estrategicamente nas regiões de Campina e Bauana — alterou essa logística exaustiva. A distância, que antes era medida em dias de navegação e centenas de reais em combustível, encolheu para um breve deslocamento. Agora, Aldeniza segue seu acompanhamento médico no posto instalado em Campina, evitando o longo trânsito até a zona urbana de Carauari, município de 28 mil habitantes situado a mais de 1,6 mil quilômetros de Manaus.
O modelo, batizado de SUS na Floresta, não pretende substituir a rede pública, mas servir como um braço operacional robusto dentro de territórios remotos. A iniciativa é fruto de uma parceria público-privada que reúne o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Umane, a FAS e o Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), com o respaldo técnico da prefeitura local e da Secretaria do Meio Ambiente do Amazonas. Guilherme Sylos, diretor de prospecção e parcerias do IDIS, reforça que a premissa básica do projeto é o fortalecimento das estruturas municipais existentes, integrando os novos postos à Estratégia Saúde da Família.
As estruturas adaptadas contam com consultórios para atendimentos presenciais e remotos, salas de triagem, odontologia e conexão de internet para viabilizar a telessaúde. Em sua primeira semana de funcionamento, o posto de Campina já evitou que cinco pacientes precisassem da “ambulancha” — a lancha de resgate da prefeitura que, muitas vezes, é o único recurso em emergências graves. Thiago Freitas Andrade, jovem da comunidade de Xibuauzinho, exemplifica a eficácia imediata do projeto: após uma semana de dores intensas por ter pisado em um prego, ele conseguiu tratamento local, com limpeza de ferimento e medicação, sem a necessidade de uma viagem penosa e tardia até a cidade.
A presença de profissionais como o enfermeiro Antônio Carlos Alves Bezerra e o técnico Jefferson Martins Honorato permite uma assistência mais ágil, que vai desde o controle de hipertensão até o tratamento de gripes infantis, além do suporte odontológico e pré-agendamento médico. O enfermeiro Honorato relata a importância desse acesso imediato ao atender uma paciente com infecção urinária grave, que chegou ao posto após caminhar por um ramal, exausta pela dor, mas aliviada por encontrar suporte humano a poucos minutos de casa.
O projeto nasceu como uma resposta à vulnerabilidade extrema evidenciada durante a pandemia de COVID-19. Para Mickela Souza Costa, gerente do programa na FAS, a sustentabilidade da floresta passa pela assistência a quem vive nela. A meta é audaciosa: o plano prevê a instalação de seis pontos de atendimento ao todo. Após a inauguração da unidade no Ubim, em Eirunepé, em abril, e agora os dois pontos em Carauari, o cronograma avança para incluir novas estruturas em Itapiranga e Novo Aripuanã, além de um alojamento para profissionais em Uarini.
Ao aproximar a atenção primária de 56 comunidades ribeirinhas, que somam aproximadamente 4,7 mil pessoas, o SUS na Floresta atua sobre uma lacuna histórica de assistência. Para moradores como Cecília Bispo de Lima, da comunidade São Francisco, a mudança é drástica: a dor na coluna que antes a obrigava a esperar deitada no chão de um porão, durante a longa espera na cidade, agora pode ser tratada com o amparo de uma equipe próxima. A rede que protege a floresta, ao que parece, finalmente começou a cuidar, com a mesma prioridade, de quem a mantém em pé.













