Vila Velha (ES) – O Pix consolidou-se como um pilar da economia nacional, mas esse sucesso tem gerado atritos com o governo dos Estados Unidos. Analistas apontam que a popularidade da ferramenta toca em um ponto sensível para Washington: a perda de controle sobre a infraestrutura de pagamentos eletrônicos no país, que tradicionalmente dependia de gigantes americanas.
Para o economista Maicon Cláudio da Silva, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), o incômodo norte-americano é estratégico. Ele traça um paralelo com a China, que desenvolveu sistemas próprios justamente para blindar sua soberania econômica. Embora o Pix tenha impulsionado a bancarização no Brasil — beneficiando, inclusive, empresas dos EUA ao converter transações em espécie para o sistema bancário —, o ganho de autonomia nacional parece pesar mais do que o lucro imediato das bandeiras de cartão.
Os números refletem essa mudança de paradigma. Em 2025, os cartões movimentaram R$ 4,5 trilhões no rastro do ecossistema do Pix, uma alta de 10,1% conforme a Abecs. Contudo, a estratégia de Washington, ao utilizar tarifaços, revela uma política internacional focada em manter a submissão de outros Estados por meio de sanções, mesmo que isso implique prejuízos financeiros para suas próprias companhias no curto prazo.
A dimensão geopolítica dessa disputa é detalhada por Ronaldo Carmona, professor da Escola Superior de Guerra (ESG). Ele observa que o Pix transformou-se em um ativo de poder. A capacidade do Brasil de realizar comércio bilateral em moedas locais contorna a arbitragem do dólar e reduz o alcance da chamada senhoriagem. A influência brasileira cresce à medida que o Banco Central firma acordos de cooperação técnica com 47 países para exportar o modelo de pagamentos instantâneos, diminuindo, passo a passo, o domínio das redes centralizadas nos EUA.
A principal barreira criada pelo Pix é a neutralidade diante de sanções. Enquanto operadoras baseadas em solo americano são obrigadas a seguir as diretrizes da Casa Branca, sistemas nacionais possuem maior liberdade. Casos como o bloqueio a Cuba, que forçou a retirada da Visa e da Mastercard da ilha, demonstram como o controle dos meios de pagamento é uma arma política. O professor Silva menciona ainda sanções direcionadas a indivíduos, como o ministro do STF Alexandre de Moraes, para ilustrar como o bloqueio financeiro é utilizado para projetar poder sobre nações soberanas.
A preocupação não é exclusiva do Brasil. Na Europa, a discussão segue o mesmo tom. Publicações internacionais notaram que sistemas soberanos ameaçam as margens operacionais, que frequentemente ultrapassam os 50%, das grandes redes americanas. O Euro Digital, com projeto-piloto previsto para 2027, nasce sob o preceito explícito de reduzir a dependência estrangeira. A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, resumiu a urgência: a necessidade de uma solução autônoma para garantir a soberania interna frente às redes predominantes.











