Por: Pr., Esc. Vanderlei M Barros uma crítica literária.
Há textos que simplesmente nos visitam, mas há outros — raros e abençoados — que criam raízes em nós. Foi exatamente essa a sensação que me tomou ao ler “A Árvore das Palavras”, conto de autoria da minha nobre confreira de letras na ALAVENI, a talentosa escritora Márcia Stein.
“Que história fascinante! A Márcia Stein foi de uma sensibilidade ímpar. O conto tem aquela atmosfera lírica e acolhedora do realismo mágico que lembra bastante o universo de autores como Jorge Amado ou até Gabriel García Márquez, mas com a ternura própria das nossas montanhas capixabas. ”
A narrativa nos transporta para aquele território mítico onde a literatura deixa de ser um objeto estático no papel e passa a ser matéria viva. Com uma prosa poética leve e envolvente, Márcia nos apresenta uma velha figueira plantada no coração de uma cidadezinha emoldurada por morros e neblinas — cenário que nós, amantes das montanhas, reconhecemos de imediato no peito. No entanto, o charme da obra reside no inacreditável: aquela não é uma árvore qualquer. Ela não lê as estações; ela lê a alma humana através das páginas esquecidas aos seus pés.
O ponto de virada do conto é de um lirismo arrebatador. Quando a curiosidade de uma menina audaciosa decide recitar versos à sombra da figueira, o impossível acontece: a madeira estremece e, em pleno rigor do inverno, a árvore floresce. É a perfeita metáfora da arte. A literatura, quando dita e sentida com coragem, tem o condão de romper a aridez do mundo e fazer brotar vida onde só havia frio e esquecimento.
Como crítico e devoto da palavra, vejo no texto de Márcia Stein um resgate urgente da delicadeza. A transformação da praça abandonada em um ponto de encontro de sonhadores nos lembra do poder comunitário da leitura. A palavra dita com beleza regenera o espaço e as pessoas.
A Árvore das Palavras é um convite tocante para que não deixemos nossos livros e nossos afetos pegando poeira. A escrita de Márcia nos afaga a alma e nos deixa com uma pergunta flutuando no ar, tão leve quanto uma pétala de figueira: qual será a próxima história que nós levaremos para essa sombra?
Uma leitura imperdível, poética e profundamente necessária:
A ÁRVORE DAS PALAVRAS
Um conto da escritora Marcia Stein.
Reza a lenda, que numa cidadezinha esquecida por entre morros e neblinas, havia uma árvore que lia.
Ela não lia o vento, nem o tempo. Lia palavras. Palavras escritas.
Era uma figueira velha, retorcida e sábia. Plantada bem no centro da praça. Seus galhos, tortos como caminhos de memória, pareciam braços abertos para os livros que as crianças esqueciam por ali.
No começo, ninguém percebeu. Mas os mais atentos notaram: que os livros deixados aos pés da figueira amanheciam com as páginas marcadas, como se alguém os tivesse lido durante a noite.
Alguns juravam ouvir sussurros quando passavam por ela ao entardecer: outros diziam ouvir frases inteiras sendo recitadas como quem reza ou sonha alto.
Até que veio então uma menina.
Curiosa, valente, dessas que não se assusta com o que os outros dizem ou chamam de bobagens.
Levou um livro de poesia, sentou-se junto à árvore, e leu em voz alta.
A cada verso lido, o tronco da figueira estremecia levemente, como se a emoção escorresse por dentro da madeira.
No dia seguinte, floresceu. Fora de época.
Em pleno inverno, a figueira floresceu.
As pessoas, surpresas, começaram a levar mais livros. Poemas, contos, histórias de amor, de luta, de esperança.
E a figueira lia. Lia em silêncio, mas respondia em flor cada livro.
A praça se transformou.
Aquela cidadezinha antes esquecida virou ponto de encontro de leitores, poetas, escritores e sonhadores.
E ali, entre uma página e outra, todos aprenderam:
Palavras podem enraizar. Podem crescer, florescer e dar frutos.
E a árvore…
Ah, a árvore que lia palavras, segue até hoje, no centro da praça, esperando a próxima história.
Quem sabe a sua? A minha?
Desde então, a árvore ganhou nome: Árvore das Palavras.
E mesmo aqueles que não creem em lendas voltam transformados após sentar-se à sua sombra. Porque ali, no silêncio mais denso, há uma voz antiga que sussurra:
“Tudo o que é dito com beleza, permanece. ”
As palavras que cultivamos hoje são as raízes do mundo que queremos florescer no amanhã.
A beleza de uma obra como essa nos faz refletir sobre o papel sagrado do escritor. Escrever não é apenas juntar palavras; é edificar a identidade de um povo. A literatura é a engrenagem viva que faz a cultura caminhar de mãos dadas com a educação e o turismo, projetando a nossa cidade, fortalecendo a nossa economia criativa e dando alma às nossas ruas.
Aproveito este espaço para render minhas mais sinceras homenagens e agradecer, de todo o meu coração, à ALAVENI — Academia de Letras e Artes de Venda Nova do Imigrante, instituição que tenho a honra e o orgulho de integrar ao lado de mentes tão brilhantes quanto a de Márcia Stein.
Mas o meu olhar de crítico e entusiasta da arte hoje também se volta para além dos nossos quadros. Reverencio, com o mesmo respeito dedicado aos acadêmicos e imortais de nossa história, cada escritor e escritora anônimos da nossa terra. Aqueles que escrevem nas dobras do dia a dia, em cadernos esquecidos, sem o devido reconhecimento ou holofotes. Saibam: vocês também são o nosso patrimônio cultural vivo. Cada verso gestado em silêncio ajuda a manter florescida a nossa própria “Árvore das Palavras”.
À minha confreira Márcia Stein, o meu muito obrigado por nos lembrar que, enquanto houver quem escreva e quem leia, a beleza nunca deixará de germinar entre nós.














Fico especialmente honrada pela delicadeza com que interpretou cada símbolo do conto e pelas referências tão generosas que fez à minha escrita. Espero continuar cultivando histórias que despertem encantamento, esperança e o amor pelos livros.
Muito obrigada por sua leitura atenta, por sua crítica tão sensível e por caminhar comigo nessa missão de manter viva a força transformadora da palavra. Que possamos continuar semeando literatura e colhendo encontros tão belos quanto este.