Cachoeiro do Itapemirim (ES) – O cenário é de um paradoxo preocupante. Embora a grande maioria dos brasileiros reconheça que mudanças no funcionamento intestinal e a presença de sangue nas fezes são indicativos de gravidade, a prática de buscar um profissional de saúde não segue a mesma urgência. O levantamento conduzido pelo A. C. Camargo Cancer Center em parceria com a Nexus expõe essa barreira: cerca de 50% dos entrevistados que identificam sintomas suspeitos acabam adiando o diagnóstico.
Ao ouvir mais de duas mil pessoas, o estudo revelou que oito em cada dez reconhecem a seriedade do quadro. Mesmo assim, a reação ao notar sangue nas fezes é, muitas vezes, a passividade. Apenas 59% dos que detectaram o sinal buscaram ajuda imediata. Os outros 40% adotaram posturas que vão desde a espera pela remissão espontânea até a automedicação ou o uso de recursos caseiros, ignorando um risco que cresce silenciosamente no organismo.
O desconhecimento sobre ferramentas preventivas amplia o perigo. A Pesquisa de Sangue Oculto nas Fezes (PSO), método capaz de detectar o tumor antes do surgimento de sintomas evidentes, é um desconhecido para 67% da população entrevistada. O hiato é ainda mais profundo entre os jovens de 16 a 24 anos, com 85% de falta de informação sobre o procedimento. Entre homens, pessoas de menor renda ou com nível de escolaridade até o ensino fundamental, a taxa de desconhecimento também supera a média geral.
O diagnóstico precoce permanece como a maior barreira contra o avanço da doença. Samuel Aguiar, líder do Centro de Referência de Tumores Colorretais do A. C. Camargo, enfatiza que sinais como dores abdominais persistentes, perda de peso sem explicação e alterações crônicas no ritmo intestinal não devem ser minimizados. A recomendação é clara: a partir dos 45 anos, a realização de exames preventivos — como a própria PSO e a colonoscopia — deve integrar o acompanhamento médico regular, ou antes, caso haja histórico familiar.
As estatísticas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) dimensionam a urgência dessa conscientização. Estão previstos mais de 53 mil novos casos anuais para o triênio 2026-2028, consolidando o tumor colorretal como o segundo de maior incidência entre a população brasileira. A letalidade da doença, que recentemente vitimou figuras públicas, ressalta que o tempo é o fator determinante entre o controle eficaz e o agravamento do quadro clínico.
Atualmente, 75% dos entrevistados relataram nunca ter tido contato com pacientes diagnosticados com esse tipo de câncer, o que pode contribuir para uma percepção de distância em relação ao problema. Contudo, com o aumento consistente das taxas de incidência no país, a necessidade de vigilância sobre a própria saúde torna-se uma medida indispensável de sobrevivência.












