Atlanta, Estados Unidos – Nesta quarta-feira, às 16h, em Atlanta, a Argentina mede forças contra a Inglaterra em busca de uma vaga na decisão mundial. A seleção, que hoje defende o posto de atual campeã, persegue o tetra, uma marca histórica alcançada apenas pela Itália, em 1934 e 1938, e pelo Brasil, em 1958 e 1962. O cenário de confiança contrasta radicalmente com as três décadas de frustrações que assombraram o futebol argentino. Para compreender como esse time se tornou uma máquina de vencer, é preciso olhar para o caos de 2018 e o processo de reconstrução iniciado em 2019.
O Mundial da Rússia, em 2018, foi um pesadelo. A fase de grupos teve tropeços contra a Islândia e uma derrota vexatória por 3 a 0 para a Croácia, evidenciando uma fragilidade técnica e de liderança. Relatos da época apontam que a tensão interna era tanta que o elenco, liderado por Lionel Messi e Javier Mascherano, interveio nas decisões do então técnico Jorge Sampaoli. A eliminação nas oitavas para a França encerrou o ciclo, deixando a Associação de Futebol Argentino (AFA) em um vácuo administrativo profundo. A escolha para o comando técnico recaiu sobre Lionel Scaloni, na época um nome sem experiência profissional. A desconfiança era tamanha que até Diego Maradona chegou a questionar publicamente sua capacidade para gerir o grupo.
O ponto de inflexão ocorreu na Copa América de 2019, sediada no Brasil. Dos 23 jogadores que foram à Rússia, apenas dez permaneceram no elenco para a transição. Foi ali que nomes como Lautaro Martínez, Rodrigo De Paul e Leandro Paredes ganharam corpo na equipe principal. A trajetória no torneio foi sinuosa, com derrota na estreia para a Colômbia e uma queda na semifinal diante do Brasil, em uma partida marcada pela inconformidade argentina com a arbitragem. Messi, antes criticado por um perfil excessivamente introspectivo, assumiu a voz da revolta, unindo o grupo em torno de um objetivo comum apesar da eliminação.
A partir dessa Copa América, Scaloni blindou o elenco. O técnico compreendeu que a longevidade dependia de uma estrutura que protegesse seu camisa 10. O surgimento de goleiros como Dibu Martínez, a consolidação de defensores como Cristian Romero e a libertação de Messi das obrigações táticas de armação criaram a base da chamada Scaloneta. Os números corroboram a metamorfose: até 2018, Messi acumulava uma média de 0,51 gols por partida pela seleção e nenhum título; a partir de 2019, o índice saltou para 0,84, acompanhado por conquistas como as Copas América de 2021 e 2024, a Finalíssima e o Mundial do Catar.
O título de 2021, dentro do Maracanã, foi o estopim da quebra do trauma de 28 anos. A mentalidade mudou a tal ponto que, mesmo após a derrota na estreia da Copa de 2022 para a Arábia Saudita, o grupo não colapsou. A promessa feita por Messi à torcida — de que não seriam decepcionados — tornou-se a espinha dorsal de uma seleção que, hoje, entra em campo em Atlanta com a certeza de quem aprendeu a transformar a dor em troféus.






