Cachoeiro do Itapemirim (ES) – O final do ano no Brasil pode ser marcado por uma virada climática drástica. Projeções científicas recentes indicam que o fenômeno El Niño tem grandes chances de ganhar uma intensidade considerada muito forte entre outubro e dezembro, período que abrange a primavera e as primeiras semanas do verão brasileiro. O cenário acende um alerta para as regiões que historicamente sofrem os impactos desse aquecimento oceânico.
Na prática, o El Niño se desenha silenciosamente nas águas do Oceano Pacífico, na altura da linha do Equador. Para que ele se configure, a temperatura da água precisa subir pelo menos 0,5 °C acima da média histórica por alguns meses, um processo acompanhado pela perda de força dos ventos que sopram de leste para oeste. Se esse aquecimento ultrapassar a barreira dos 2 °C, a situação evolui para o que os especialistas chamam de “super El Niño”.
Essa engrenagem climática exige paciência para ser decifrada por completo. Segundo a meteorologista Marilene de Lima, do Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia de Santa Catarina, são necessários ao menos sete meses de monitoramento contínuo para confirmar a real dimensão do fenômeno e seus impactos no território nacional. Quando consolidado na primavera, o efeito mais direto costuma ser o aumento substancial das precipitações no Sul do país, com volumes que superam a média histórica entre 20% e 30%.
A memória recente do período de 2023 a 2024 ainda está viva: enquanto os estados do Sul enfrentavam tempestades severas, a região Norte amargava uma seca histórica. Para este ano, o desenho se repete com previsões de chuvas acima da média na Região Sul já a partir do inverno, marchando em direção ao pico do fenômeno na primavera.
No entanto, o aquecimento das águas do Pacífico não atua sozinho como um interruptor de tempestades. Marilene de Lima esclarece que o El Niño funciona mais como um combustível. A ocorrência de eventos extremos depende diretamente da combinação com frentes frias e correntes de vento em médios e altos níveis da atmosfera, que transportam a umidade. É essa dinâmica complexa que exige um acompanhamento diário do mapa do tempo, muito além das projeções de longo prazo.












