São Paulo (SP) – O cenário do atendimento médico para a população em situação de rua em todo o Brasil passa por uma transformação estratégica. Na última quarta-feira (24), o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, apresentou em São Paulo uma nova diretriz voltada especificamente a esse público, com o objetivo de levar o sistema de saúde diretamente para onde as pessoas vivem, superando barreiras históricas de acesso.
O lançamento oficial aconteceu na Casa de Oração do Povo da Rua, no bairro da Luz. A medida não se resume a promessas, mas finca o pé em um planejamento prático: a ampliação das equipes especializadas em todo o território nacional. Segundo Padilha, o país salta de cerca de 300 para 392 equipes dedicadas exclusivamente a esse acompanhamento. O plano inclui ainda um robusto programa de formação profissional, garantindo que o cuidado não seja apenas técnico, mas também humanizado.
A espinha dorsal dessa ofensiva sanitária são as 400 novas Unidades Móveis de Rua (UMR). Com um aporte de R$ 144 milhões, a meta é que toda a frota esteja em operação até 2027. Esses veículos não são apenas transporte; funcionam como consultórios itinerantes capazes de realizar desde coletas de exames laboratoriais e testes rápidos até procedimentos ginecológicos e curativos complexos. A ideia, segundo o ministro, é inverter a lógica: não é o paciente quem deve buscar o posto, mas o sistema que vai até o território.
Uma das mudanças mais impactantes da nova política é o fim de uma barreira burocrática que, por anos, excluiu milhares de pessoas: a exigência de endereço fixo ou cartão SUS para o acolhimento. A norma torna obrigatório o atendimento imediato, proibindo restrições baseadas na condição de moradia. O texto também impõe uma postura rigorosa contra o racismo, a aporofobia e a LGBTQIA+fobia dentro das unidades, promovendo o que o ministério define como um enfrentamento integrado a essas discriminações.
Daiane Cristina Rodrigues, que conhece as ruas por experiência própria e hoje atua na Pastoral do Povo da Rua, enxerga no projeto um divisor de águas. Ela lembra que, até pouco tempo atrás, a simples aparência ou a menção à ausência de casa eram suficientes para fechar as portas dos serviços públicos. “Muda tudo”, resume. Para quem sobrevivia à margem, o novo protocolo promete dignidade onde antes havia apenas burocracia.
O padre Júlio Lancellotti, voz ativa na defesa desse público, destaca o simbolismo do deslocamento. Para ele, a presença das unidades móveis inverte um ciclo vicioso. Onde a população em situação de rua costuma encontrar apenas a repressão, agora, espera-se que a saúde se faça presente. “É o equipamento indo ao encontro de quem precisa”, observa.
A estrutura da política é dividida em sete eixos, que vão além do atendimento médico direto. Inclui o fortalecimento de estratégias de redução de danos, a inclusão de um campo específico para “população em situação de rua” nos cadastros do SUS e protocolos de emergência para proteger essas pessoas durante eventos climáticos extremos. A ideia de gestão participativa é outro pilar: o ministério pretende que as próprias pessoas em situação de rua colaborem na construção e no monitoramento das ações que regem suas vidas, conectando saúde, nutrição e segurança alimentar em um esforço contínuo de redução das desigualdades.









