Bauru (SP) – No Brasil, um em cada 650 nascimentos resulta em um diagnóstico de fissura labiopalatina, a malformação craniofacial congênita de maior incidência no país. O dado, que se traduz em cerca de 5 mil novos casos anuais, esconde uma realidade que vai muito além da aparência física: a necessidade de um acompanhamento multidisciplinar rigoroso, capaz de se estender desde os primeiros meses de vida até a entrada na vida adulta.
Para trazer luz ao tema e combater preconceitos, o 24 de junho foi instituído como o Dia Nacional de Conscientização sobre a Fissura Labiopalatina. A data homenageia a criação, em 1967, do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da USP, em Bauru, interior paulista. O centro, carinhosamente conhecido como Centrinho, tornou-se referência mundial ao oferecer um modelo de tratamento que integra cirurgias, fonoaudiologia e suporte odontológico sob o mesmo teto.
O cirurgião craniofacial Cristiano Tonello, à frente do departamento especializado da instituição, observa que a causa da malformação nem sempre é hereditária. Em muitos casos, o desenvolvimento incompleto do lábio ou do palato ocorre de forma isolada durante a gestação. Quando o diagnóstico é realizado ainda no pré-natal, por meio de exames de rotina, as chances de sucesso no tratamento aumentam drasticamente.
A jornada, no entanto, não é breve. Crianças com fissura enfrentam desafios estruturais na respiração, na deglutição, na fala e no desenvolvimento dentário. “Não é apenas fechar uma abertura”, resume Tonello. O processo exige a articulação de diversas especialidades médicas em diferentes etapas do crescimento. Apesar da excelência técnica encontrada em polos das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, o acesso permanece como uma ferida aberta no Norte e Nordeste do Brasil, onde a distância física muitas vezes separa o paciente da reabilitação necessária.
A experiência pessoal de Thyago Cézar, 40 anos, ilustra as cicatrizes desse caminho. Ao nascer, em 1986, ouviu dos médicos um prognóstico desolador. A mudança de vida veio quando a família, orientada a buscar ajuda em Bauru, mudou-se para perto do hospital. Thyago passou por uma bateria de 10 cirurgias e mais de uma década de correções ortodônticas. Hoje, ele não se vê como um caso de superação solitária, mas sim como um beneficiário de um sistema que, apesar de complexo, conseguiu acolhê-lo.
Advogado e membro da Rede Profis Brasil, o profissional utiliza sua história para pautar o debate político. Sua luta atual é a equiparação legal de pessoas com fissura labiopalatina a pessoas com deficiência, facilitando o acesso a direitos e políticas públicas. Enquanto o projeto tramita na Câmara dos Deputados e em diversas assembleias estaduais, a mensagem que ele deixa é clara: o desafio vai além do bisturi.
O foco agora é garantir que o poder público atue na ponta, capacitando maternidades e unidades básicas de saúde para o encaminhamento ágil dos bebês. Para famílias que ainda desconhecem as possibilidades de correção, a informação é a ferramenta mais potente contra a invisibilidade. Sem a reabilitação completa, o potencial de uma criança é cerceado pelo estigma; com ela, as barreiras são derrubadas passo a passo, cirurgia após cirurgia.













