São Paulo (SP) – No vão livre do Masp, o concreto cinza da Avenida Paulista deu lugar a um mar de cartazes e vozes na tarde de 21 de junho de 2026. A 18ª Marcha da Maconha reuniu dezenas de milhares de pessoas em São Paulo sob um preceito que vai muito além do consumo recreativo: a urgência de debater a saúde pública, as falhas do sistema carcerário e o direito ao tratamento médico.
O asfalto foi tomado por um público heterogêneo. Caminhavam lado a lado idosos, casais com crianças pequenas e jovens ativistas. Nas faixas e camisetas, mensagens de cunho político e social se misturavam. Frases de impacto como “Maconha não mata, mas o feminicídio, sim” dividiam espaço com críticas severas ao proibicionismo. Os manifestantes apontaram que a atual legislação sobrecarrega as prisões brasileiras e sufoca o potencial terapêutico da planta, que hoje beneficia pacientes de diversas idades — inclusive crianças — sob recomendação médica.
O peso do silêncio e a força do afeto
No meio da multidão, a professora de educação infantil Stephanie Oliveira fazia sua estreia no protesto, acompanhada pelo namorado. O motivo de sua presença na Paulista estava em casa. Sua mãe, de 47 anos, depende do uso medicinal da cannabis para conseguir regular o sono e aliviar fortes dores nas costas. Mesmo sem ser usuária da planta, Stephanie decidiu somar sua voz à manifestação por entender o impacto real do tratamento na rotina familiar.
Antes de registrar o momento na internet, a educadora hesitou. Pensou na reação dos colegas de trabalho da escola, que a acompanham nas redes sociais. A preocupação, contudo, deu lugar à convicção. Ela decidiu publicar as fotos da caminhada por acreditar que o debate sobre a legalização envolve a garantia de direitos básicos e não deve ser tratado como um tabu inalcançável, independentemente de julgamentos alheios.
A realidade do acesso no cenário nacional
A situação que levou Stephanie e sua mãe ao asfalto reflete a realidade de milhares de lares no país. Atualmente, cerca de 50 mil pessoas no Brasil declaram utilizar produtos à base de cannabis sativa para fins terapêuticos. Os números constam em um anuário da Kaya Mind, organização especializada na sistematização de dados sobre o setor.
A publicação, viabilizada com apoio financeiro da Gravital Clínica Canábica e da Cannect, joga luz sobre um entrave crônico: a resistência moral e a falta de aceitação por parte de amplos setores da sociedade impedem que o debate legislativo avance no país. Como consequência direta dessa inércia política, a importação desses insumos permanece restrita a famílias de alto poder aquisitivo, deixando a população de baixa renda sem alternativas viáveis de tratamento.
Apesar do preconceito que ainda cerca o tema, o perfil de quem recorre à planta revela um cenário distante dos estereótipos comuns. Um levantamento realizado pela Bliss Data em 2026 aponta que as mulheres de meia-idade e as que estão no início da velhice compõem a maior fatia de usuários da cannabis para fins medicinais no país, buscando no composto uma alternativa para restabelecer a qualidade de vida.












