Baixo Guandu (ES) – Aos 40 anos, Josimar José Évora Dias — o Vozinha — sabe que o futebol é feito de janelas que se abrem e fecham com rapidez inesperada. Sem um clube para chamar de seu desde o término de seu contrato em maio, o goleiro cabo-verdiano transformou a estreia contra a Espanha em um cartão de visitas improvável. O empate em 0 a 0, conquistado sob pressão constante, não apenas lhe garantiu o título de melhor jogador da partida pela FIFA, mas também o alçou ao posto de fenômeno digital, com 12 milhões de novos seguidores interessados em sua trajetória.
Para quem iniciou sua jornada profissional apenas aos 25 anos, a maturidade não é um peso, mas uma ferramenta. A alcunha de “Vozinha”, herdada das constantes queixas que fazia aos avós quando, ainda criança e franzino, sentia-se injustiçado nas peladas de rua em São Vicente, reflete a essência de um atleta que precisou lutar contra o ceticismo de treinadores que preferiam estaturas maiores. Ele nunca se dobrou. Mesmo ignorado na base, manteve a disciplina rígida que o levaria a passagens pelo futebol de Angola, Moldávia, Portugal, Chipre e Eslováquia.
A vida, ele admite, mudou graças à bola. Foi o esporte que financiou a construção da casa de sua mãe e amparou sua avó durante a batalha contra o Alzheimer. Em meio ao turbilhão de fama repentina e pedidos de entrevistas, Vozinha tenta manter o foco na competição. Ele não esconde o desejo de encontrar um mercado que valorize sua experiência, um lugar onde possa encerrar o ciclo com dignidade e felicidade, ciente de que a idade é frequentemente um obstáculo em negociações contratuais.
A relação com o Brasil, fortalecida pela cultura musical e pela identificação de um povo que, tal qual os cabo-verdianos, encontra na resiliência e na celebração uma forma de existir, é agora um abraço que ele recebe de volta. Enquanto prepara a mente para os duelos contra Uruguai e Arábia Saudita, Vozinha olha para trás com gratidão. Ele entende que o orgulho estampado no rosto das crianças de Cabo Verde, que agora veem nos “Tubarões Azuis” uma referência real, é o maior legado que poderia construir.
Sobre a família, o goleiro lida com a complexidade de quem viveu longe do conforto. Tenta, com paciência, organizar os trâmites para que sua mãe possa acompanhá-lo, respeitando as limitações e o receio dela com o mundo exterior. Para Vozinha, o futebol já lhe deu o que ele precisava para se tornar um homem respeitável. Se o futuro reserva um último contrato ou se este é o apagar das luzes, pouco importa diante da certeza de ter chegado a um palco que, na infância em São Vicente, parecia impossível de alcançar.









