O geógrafo brasileiro Milton Santos, um dos maiores intelectuais do século XX, completaria 100 anos no dia 3 de maio. Falecido em 2001, aos 75 anos, o pensador baiano deixou um legado que ainda serve como base para compreender as disparidades socioeconômicas no Brasil e ao redor do mundo. Sua visão transformou a geografia ao integrar economia, política e sociedade na análise do espaço urbano.
A teoria dos dois circuitos
Um dos pilares do trabalho de Milton Santos é a divisão da economia urbana em dois circuitos. O superior compreende grandes empresas, caracterizadas por alto nível tecnológico, capital intenso e organização rígida. Em contrapartida, o circuito inferior é formado por pequenos comércios e serviços que, embora possuam menos recursos, apresentam uma capacidade superior de adaptação às necessidades da população local.
Livia Cangiano, pós-doutoranda na Universidade de São Paulo (USP) e professora da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), utiliza essa perspectiva para analisar as feiras populares de São Luís. Segundo a especialista, o comércio de periferia oferece flexibilidade, como a venda de itens fracionados, algo inviável em grandes redes de supermercados. Essa dinâmica demonstra que o espaço urbano não é apenas um cenário, mas o resultado de decisões políticas que priorizam determinados grupos em detrimento de outros.
Trajetória e superação
Nascido em 1926, em Brotas de Macaúbas, na Bahia, Milton Santos construiu uma carreira acadêmica brilhante, com passagens pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e doutorado em Estrasburgo, na França. Exilado durante a ditadura militar, lecionou em diversos países antes de retornar ao Brasil, onde consolidou sua influência na UFRJ e na USP. Como intelectual negro, enfrentou o racismo estrutural na academia, tornando-se uma referência fundamental para gerações posteriores de pesquisadores.
A geógrafa Catia Antonia da Silva, professora da UERJ, destaca que o impacto de Milton foi tanto técnico quanto humano. Embora não tenha focado sua obra exclusivamente na negritude, ele ofereceu ferramentas críticas para analisar como raça e classe social se entrelaçam no território. Em entrevistas, como a concedida ao programa Roda Viva em 1997, o geógrafo sempre enfatizou a dificuldade de ser um intelectual negro no Brasil, mantendo uma postura firme diante das barreiras sociais.
Globalização e resistência
Em obras como Por uma outra globalização, Milton Santos criticou o modelo de integração mundial que, apesar das promessas de progresso, aprofunda desigualdades e privilegia interesses de grandes corporações. Para ele, o chamado meio técnico-científico-informacional criou um contraste brutal entre regiões altamente conectadas e áreas desprovidas de serviços básicos, evidenciando a materialização das relações de poder sobre o território.
Apesar do diagnóstico crítico, o autor também vislumbrou caminhos de transformação. Ele defendia que a apropriação de tecnologias e redes por populações locais poderia criar alternativas econômicas e sociais sustentáveis. Para os estudiosos de sua obra, o centenário de Milton Santos reforça a importância de olhar para a periferia não apenas como um lugar de carência, mas como um espaço de resistência, reinvenção e possibilidades de um futuro mais digno.








