Nova York, Estados Unidos – As alterações promovidas no calendário de imunização dos Estados Unidos ajudam a desenhar o pior cenário de sarampo no país em mais de três décadas. Os dados oficiais contabilizam mais de 4,4 mil casos confirmados e três mortes neste ano, sendo que 98% dos infectados não haviam completado o esquema de vacinação. O avanço ocorre em paralelo a discursos públicos contrários às vacinas endossados pela gestão de Donald Trump, o que gerou alertas de autoridades sanitárias brasileiras sobre os riscos de contágio para todo o continente americano.
Para o diretor do Programa Nacional de Imunizações, Eder Gatti, a situação americana representa um retrocesso preocupante. Ele aponta que o secretário de Saúde dos Estados Unidos adota posturas declaradamente antivacina, criando um ambiente propício para a propagação de teorias sem respaldo científico. A Organização Panamericana de Saúde registra mais de 56 mil ocorrências e pelo menos 80 óbitos em toda a região, colocando sob forte pressão os países vizinhos que tentam blindar suas fronteiras contra a reintrodução do vírus.
No Brasil, o cenário exige vigilância constante. O país registrou 61 casos neste ano, a maioria com origem importada, mas conseguiu preservar o certificado de área livre de sarampo obtido inicialmente em 2016 e reconquistado recentemente. A recuperação do título foi fruto de uma ação conjunta entre o Ministério da Saúde, estados e municípios para elevar as taxas de cobertura. Em 2023, os índices da tríplice viral alcançavam 88% na primeira dose e 66% na segunda, subindo para 96% e 78% em 2024, respectivamente, com marcas preliminares de 95% e 80% no período atual.
As diretrizes adotadas nos Estados Unidos em agosto reduziram de 17 para 11 o número de imunizantes recomendados rotineiramente para crianças e determinaram que a tríplice viral seja aplicada em três doses separadas. O diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações, Juarez Cunha, esclarece que tais medidas carecem de embasamento científico e esbarram na realidade industrial, visto que as vacinas individualizadas para sarampo, caxumba e rubéola deixaram de ser fabricadas há quase vinte anos. A divergência entre as orientações governamentais e as recomendações da Academia Americana de Pediatria gera desorientação pública e compromete a confiança coletiva.
O impacto da desinformação extrapola as fronteiras norte-americanas. Alegações falsas sobre uma suposta ligação entre vacinas e o transtorno do espectro autismo, repetidas por lideranças políticas, continuam circulando nas redes sociais e encontram eco em solo brasileiro. Além disso, a decisão de limitar a aplicação da vacina contra a hepatite B apenas a recém-nascidos considerados de alto risco já provoca recusas pontuais em maternidades particulares do Brasil, cenário classificado por especialistas como um risco severo para a saúde infantil, dado que a infecção precoce apresenta alta probabilidade de se tornar crônica.










