Anunciada em dezembro, a reforma tributária já começou a redefinir como impostos serão cobrados e administrados. Novas regras de crédito e critérios de local de tributação afetarão contratos, políticas, investimentos, estruturas societárias e, principalmente, decisões. Para empresas, famílias e consumidores finais, as medidas significam mudanças e adaptações imediatas.
Ainda que a reforma sinalize um sistema prestes a atualizar, muitos brasileiros têm dificuldades em entender o que muda, quando muda e para quem. A advogada Maria Luiza Fontenelle, especialista em Direito Empresarial e Sucessório, explica que o novo modelo fiscal prevê um longo período de transição até 2033 para evitar rupturas bruscas – mas quem a ignora agora corre o risco de ficar para trás.
“O sistema antigo e o novo coexistirão, com alíquotas sendo gradualmente ajustadas e mecanismos de compensação sendo aplicados. Estados e Municípios terão um período para adaptação à nova forma de arrecadação e distribuição das receitas. Mesmo com todos esses anos de preparação, o período de transição será complexo e exigirá acompanhamento técnico constante para evitar erros e perdas financeiras. Em outras palavras, a reforma tributária exige mudança de postura e planejamento.”
O que muda
A principal alteração prevista é a substituição de diversos impostos sobre o consumo. Fontenelle explica que cobranças como PIS, Cofins, ICMS, ISS e IPI serão unificadas em dois tributos centrais: a CBS, de competência federal, e o IBS, compartilhado entre Estados e Municípios. “O novo sistema adota crédito financeiro amplo, reduzindo a cumulatividade, e passa a tributar no destino, onde ocorre o consumo, e não mais onde está o produtor ou prestador”, esclarece.
Para quem muda
Os novos tributos impactarão diretamente empresas — especialmente aquelas com cadeias longas de produção ou atuação nacional —, profissionais liberais, prestadores de serviços e consumidores finais, que poderão perceber mudanças nos preços e na transparência dos impostos embutidos.
Famílias também devem se atentar ao consumo, ao patrimônio e ao planejamento sucessório. A advogada destaca que o redesenho tributário pode afetar preços de bens e serviços, contratos de longo prazo, imóveis e estruturas patrimoniais.
O cidadão comum também será afetado, ainda que indiretamente, já que ajustes na arrecadação podem refletir em aumentos ou reduções de preços, alterações na composição de custos de serviços essenciais e até adaptações em contratos de consumo, como planos, mensalidades e serviços continuados.
O que fazer
Diante do novo cenário, a mudança exige postura ativa e organização por parte de todos. Para empresários, a orientação é iniciar imediatamente a revisão de preços, contratos e modelos de crédito tributário, já que a lógica de custo e margem passa a operar sob novas bases.
“Também será necessário reavaliar cadeias de fornecimento, localização das operações e formatos de prestação de serviços, considerando que a tributação migrará para o destino do consumo”, completou Fontenelle.
Famílias devem voltar a atenção ao planejamento financeiro e patrimonial, revisando bens, contratos e eventuais estratégias sucessórias para minimizar incertezas ao longo da transição.
O consumidor, por sua vez, deve acompanhar as mudanças. Organizar informações e planejar com antecedência é a melhor forma de atravessar a transição sem prejuízos. Maria Luiza aconselha: “Dê atenção extra ao orçamento doméstico e aos contratos em vigor. Visto que a mudança ocorrerá de forma gradual, precauções são recomendadas.”
Por que parece tão complicado?
Apesar de o novo sistema já estar em vigor, grande parte da população ainda não conseguiu acompanhar o que efetivamente muda no dia a dia. Para a advogada, o tema segue distante porque “a reforma tem sido comunicada predominantemente em linguagem técnica, voltada a especialistas”, o que impede que cidadãos visualizem seus efeitos práticos.
Nesse contexto, iniciativas que simplificam a informação e aproximam as pessoas das decisões ganham força — como o +Jus, idealizado por Maria Luiza, sistema digital que atua como tradutor de informações relacionadas a processos judiciais, simplificando o “juridiquês” em linguagem clara e acessível.
“Em um contexto de mudanças normativas complexas, que podem gerar litígios justamente pela falta de clareza na informação, a proposta é aproximar as partes do que está acontecendo no processo, reduzindo ruídos e facilitando a compreensão das etapas e decisões judiciais”, ressaltou.
Em um cenário em transformação, compreender o que vem pela frente deixa de ser vantagem e torna-se necessidade para empresas, famílias e consumidores que querem atravessar essa nova era com segurança e planejamento.












