Brasília (DF) – O cenário econômico para 2026 apresentou uma mudança de tom nesta quinta-feira, 25. Em seu Relatório de Política Monetária, o Banco Central elevou a projeção de crescimento do PIB para 2%, um salto em relação aos 1,6% previstos anteriormente. O otimismo vem na esteira de um primeiro trimestre surpreendente, marcado por uma expansão de 1,1% em comparação aos últimos três meses de 2025, com fôlego renovado na agropecuária, na indústria e no setor de serviços.
O documento detalha que os motores dessa revisão são o dinamismo da demanda interna e o consumo das famílias, impulsionados por estímulos fiscais e creditícios. Empresários também parecem mais dispostos a investir. No entanto, o próprio colegiado faz uma ressalva necessária: o custo do dinheiro, mantido em patamares elevados, atua como um freio constante nessa aceleração.
O desafio atual está na inflação. A Selic, que chegou a 15% ao ano — o maior nível em duas décadas —, iniciou um ciclo de queda apenas em março. Atualmente em 14,25%, após três reduções consecutivas, a taxa básica de juros tenta equilibrar o controle de preços com a necessidade de fomentar a atividade econômica. O clima de incerteza global, agravado pela guerra no Oriente Médio, não facilita o trabalho. O conflito segue pressionando os preços de combustíveis e alimentos, criando um cenário onde a inflação tende a permanecer acima do teto da meta (4,5%) por mais de dois trimestres antes de ensaiar um recuo apenas em 2027.
A probabilidade de o IPCA ultrapassar o limite superior da meta saltou de 30% para 79%. Para o BC, fatores como o hiato do produto, o petróleo mais caro e as expectativas inflacionárias desancoradas sustentam essa pressão, embora a apreciação cambial ajude a mitigar parte do impacto.
Quanto ao mercado de crédito, a estimativa de crescimento permanece travada em 9%. O movimento interno é de reacomodação: enquanto o crédito livre perde um pouco de tração, especialmente para empresas, o crédito direcionado ganha espaço com o apoio de programas governamentais como o Pronampe e o Desenrola para Micro e Pequenas Empresas. Ainda assim, a tendência é de desaceleração, já que as famílias brasileiras enfrentam um cenário de renda comprometida e endividamento persistente.
Nas contas externas, o rombo nas transações correntes deve ser ligeiramente menor do que o antecipado, passando de 58 bilhões para 56 bilhões de dólares. A balança comercial brasileira colhe os frutos da alta nos preços das commodities, especialmente o petróleo, a soja e a carne bovina. Mesmo com o aumento projetado no valor das importações, o país espera atrair 75 bilhões de dólares em investimentos diretos, um montante robusto para blindar as contas diante da volatilidade internacional.
O Brasil, portanto, caminha em um equilíbrio tênue. Se por um lado a atividade econômica surpreende pela resiliência, o custo de vida reflete as turbulências lá fora. O sucesso dessa trajetória depende de como o país navegará por um ano em que a inflação desafia os limites, enquanto tenta manter viva a chama do investimento em um ambiente ainda marcado por juros restritivos.









