Serra (ES) – As propostas para a política externa brasileira nas eleições deste ano expõem um divisor de águas entre os planos de governo de Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Enquanto o documento do candidato do PT dedica cerca de seis páginas ao tema, enfatizando o protagonismo em blocos como o BRICS e o fortalecimento do Sul Global, a plataforma do postulante do PL ocupa metade desse espaço e prioriza uma reaproximação imediata com Estados Unidos, Israel e Argentina.
Lula sustenta que o cenário internacional enfrenta conflitos inéditos e ataca o que chama de tentativa de imposição de uma ordem predatória. Seu plano rejeita alinhamentos automáticos, classificando-os como servilismo e renúncia à soberania nacional. Em contrapartida, Flávio Bolsonaro argumenta que o Brasil sacrificou interesses nacionais em prol de ideologias, criticando a postura da atual gestão em relação ao Irã e à Venezuela. O candidato do PL defende o pragmatismo e sustenta que a soberania é exercida na prática, distanciando-se de retóricas de confronto.
A estratégia de defesa também reflete essas divergências. O plano de Lula atrela a soberania à capacidade industrial, destacando investimentos do Novo PAC que somam R$ 20,4 bilhões desde 2023, incluindo a entrega de sete caças Gripen e a produção de viaturas blindadas. Flávio Bolsonaro, por sua vez, foca na inovação tecnológica, propondo incentivos para drones e inteligência artificial nas Forças Armadas, buscando alinhar o investimento militar às necessidades de um país que integra diversos blocos econômicos globais.
Um ponto central de disputa reside nos minerais críticos e nas terras raras. O Brasil detém a segunda maior reserva mundial do insumo, atrás apenas da China. Lula propõe uma estratégia regional de mapeamento e beneficiamento para evitar a mera exportação de matéria-prima. Já o plano de Flávio Bolsonaro vislumbra o Brasil como o campo de batalha para romper a dependência norte-americana em relação aos chineses, atraindo capitais estrangeiros e transferência de tecnologia de todos os países interessados na cooperação.
O ambiente diplomático é igualmente tenso. O plano petista aponta o isolamento geopolítico sofrido durante a gestão de Jair Bolsonaro, pai de Flávio. O texto de Lula menciona o impacto negativo das tarifas impostas pelo governo de Donald Trump aos produtos brasileiros, episódios celebrados por aliados do bolsonarismo na época. Flávio, contudo, atribui essas sanções a uma suposta agenda anti-EUA de seus adversários e promete que, sob sua ótica, o Itamaraty será guiado por competência técnica e profissionalismo.
Por fim, a adesão à Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é um pilar específico defendido por Flávio Bolsonaro. O candidato argumenta que o ingresso no fórum, que reúne as economias mais desenvolvidas, seria um passo essencial para elevar os padrões regulatórios, melhorar a governança de estatais e reduzir a corrupção. Do lado oposto, o plano de Lula reafirma a integração sul-americana e o fortalecimento do Mercosul como o primeiro círculo de projeção estratégica do país no exterior.









