São Paulo (SP) – Há dez anos, o cenário na Vila Guarani, zona sul de São Paulo, era radicalmente diferente. Onde hoje se ergue uma das estruturas esportivas mais avançadas do mundo, funcionava uma unidade da antiga Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor. A transformação daquele terreno no quilômetro 11,5 da Rodovia dos Imigrantes foi consolidada em 23 de maio de 2016, com a inauguração oficial do Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro.
O projeto exigiu dois anos e meio de obras intensas e um investimento de 305 milhões de reais, viabilizado por uma parceria entre o Ministério do Esporte e o governo paulista. Antes dessa conquista, a realidade dos atletas brasileiros era marcada pela improvisação. Modalidades como natação, atletismo e basquete em cadeira de rodas dependiam de espaços compartilhados, muitas vezes sem acesso aos melhores horários ou condições adequadas de treino.
A virada de chave no alto rendimento
A existência do CT funcionou como um divisor de águas para o desempenho do país em competições internacionais. Yohansson Nascimento, vice-presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro, descreve a entrega como a realização de um sonho. Ele compara o impacto do centro ao desenvolvimento tecnológico na Fórmula 1: o que é testado e aprimorado ali, especialmente em próteses e equipamentos esportivos, acaba beneficiando toda a comunidade de pessoas com deficiência fora das quadras.
Os resultados confirmam essa tese. Em Tóquio, durante os Jogos de 2021, o Brasil aproveitou a estrutura para consolidar seu preparo e saltou para um novo patamar de excelência. A trajetória culminou em Paris, em 2024, com uma marca histórica de 25 medalhas de ouro e a conquista inédita do quinto lugar no quadro geral. No Mundial de atletismo, o país superou potências como a China, provando que a infraestrutura de ponta é um pilar decisivo para o sucesso.
Um ecossistema de inclusão e formação
O complexo é vasto e projetado para atender diversas necessidades. O espaço abriga piscinas olímpicas, pistas de atletismo e arenas especializadas para modalidades que vão do goalball — esporte exclusivo para deficientes visuais — ao futebol de cegos e paralisados cerebrais. Há ainda um residencial interno capaz de acomodar cerca de 300 pessoas, centralizando a operação administrativa do Comitê, que migrou de Brasília para São Paulo.
A força do CT também se manifesta na Escola Paralímpica de Esportes, criada em 2018 para crianças e jovens entre 7 e 17 anos. É dali que surgem talentos como Alessandra Oliveira, campeã mundial de natação em 2025, e João Pedro Santos, destaque no atletismo. Para esses jovens, o centro representa um horizonte de possibilidades onde as limitações físicas deixam de ser o foco para dar lugar ao desenvolvimento pleno das capacidades individuais.
Palco de grandes eventos
Além do treinamento diário, o local tornou-se um hub de eventos esportivos. Desde 2017, quando sediou o Parapan de Jovens, o CT já recebeu mais de 2,2 mil competições, incluindo o Festival Paralímpico e as Paralimpíadas Escolares. O calendário segue movimentado, com a confirmação do Mundial de rugby em cadeira de rodas para agosto de 2026.
Para quem trabalha ali, como Viviane Monteiro, funcionária do setor financeiro, o ambiente é mais do que um local de trabalho. É um espaço de acolhimento constante. A gestão do centro, renovada recentemente por um contrato de 35 anos, garante que esse legado de inclusão e alta performance continue sendo a marca registrada do esporte nacional, servindo de vitrine para o mundo e de casa para os novos ídolos brasileiros.







