Assunção, Paraguai – O Senado paraguaio encerrou nesta sexta-feira (6) qualquer possibilidade de alívio imediato para Santiago Peña. Em uma decisão que agrava a instabilidade institucional no país, a casa legislativa negou o pedido da defesa do presidente, que solicitava um prazo adicional de 72 horas para preparar sua argumentação no processo de impeachment. Com a negativa, o cronograma segue conforme o previsto, e Peña foi oficialmente convocado a comparecer diante do plenário para prestar esclarecimentos e enfrentar as acusações que pesam contra sua gestão.
O ambiente político em Assunção tornou-se insustentável ao longo da semana. Pressionado por uma onda de manifestações populares e diante da perda de sustentação entre seus antigos aliados, o presidente anunciou sua renúncia na quinta-feira (5). Contudo, a saída do cargo não encerra automaticamente a crise, uma vez que a renúncia ainda depende de trâmites formais de análise pelo Congresso. A abertura do processo de impeachment, que culminou neste cenário, ocorreu na véspera, quando a Câmara dos Deputados votou pela medida de forma unânime, com o apoio de todos os 78 parlamentares da casa.
O núcleo das denúncias que deflagraram o processo envolve a relação de Peña com o Ueno Bank. O presidente é acusado de manter participações societárias e vínculos patrimoniais com o grupo controlador da instituição. A suspeita de conflito de interesses ganhou força quando o chefe do Executivo nomeou Carlos Carballo, ex-executivo do mesmo banco, para o comando do Banco Central do Paraguai. Documentos do processo destacam que a financeira em questão obteve licença para operar como banco em menos de três meses, além de enfrentar denúncias sobre a concessão irregular de empréstimos, que teriam extrapolado os limites legais em benefício de empresas de fachada ou vinculadas ao grupo controlador.
Para além das questões bancárias, o patrimônio pessoal de Peña entrou na mira do legislativo. Parlamentares apontam que a riqueza do presidente registrou um crescimento de 17 vezes entre 2017 e 2023. O levantamento também questiona a construção de uma mansão cujas parcelas de pagamento seriam, segundo os deputados, incompatíveis com os rendimentos auferidos pelo ocupante da presidência. O estopim de toda a movimentação política foi a liquidação do Ueno Bank, decretada nesta semana após a revelação de um rombo financeiro profundo.
As consequências econômicas atingiram o país de forma dramática. Com uma população estimada em pouco mais de 7 milhões de habitantes, o Paraguai observa um efeito colateral da falência que impactou cerca de 3 milhões de cidadãos. O prejuízo bilionário não se limitou a depositantes privados, alcançando fundos públicos e as reservas das aposentadorias vinculadas à Previdência Social. O abalo na confiança do sistema bancário desencadeou uma corrida aos saques e provocou a desvalorização da moeda nacional.
O reflexo da crise também transbordou as fronteiras. Brasileiros que migraram para o Paraguai, atraídos pelo regime tributário local, relataram nas redes sociais o congelamento repentino de suas contas correntes. Entre o ceticismo das ruas e a pressão das casas legislativas, o governo paraguaio tenta conter uma desintegração institucional enquanto o futuro de Peña permanece incerto diante do julgamento político em curso.












