Brasília (DF) – O centro de Brasília transformou-se em um cenário de contraste visual neste sábado (24), véspera do pleito presidencial. Apenas dois quilômetros separavam as multidões que apoiam as candidaturas de Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, e Flávio Bolsonaro, do PL. Enquanto o grupo majoritariamente vestido de vermelho concentrou-se nas imediações do Museu Nacional, os defensores da candidatura de Bolsonaro ocuparam a área da Torre de TV, em uma divisão geográfica que espelha a polarização política atual.
Apesar da proximidade física, que gerou provocações ocasionais durante encontros fortuitos nas ruas, o termo democracia foi ecoado por ambos os lados. Em meio a jingles de campanha e ao som recorrente do Hino Nacional, eleitores de diferentes gerações buscaram expressar suas convicções. Para a arquiteta Hanna Brandini, de 33 anos, que vestia vermelho, o ambiente de hostilidade é alimentado por uma campanha marcada por excessiva desinformação. Ela acredita que os desentendimentos observados sejam apenas reflexos momentâneos do embate.
Do lado dos apoiadores de Flávio Bolsonaro, o bacharel em direito identificado como Leonardo, de 36 anos, relatou o custo pessoal dessa divisão. O eleitor afirmou ter rompido diversos laços de amizade ao longo dos últimos anos e diz sentir-se alvo de discriminação. Leonardo enfatiza que, independentemente do resultado das urnas deste domingo, o próximo governo precisará ser alvo de respeito por parte daqueles que saírem derrotados do processo eleitoral.
A dinâmica familiar também reflete a fragmentação social. Enquanto as amigas Lana Wendy Rodrigues e Dayane Gomes, moradoras de Sobradinho 2, mantêm uma rotina distante de discussões políticas para preservar o convívio, outros preferem o debate aberto. É o caso de Samuel Nascimento e Julia Nascimento, irmãos de ambas, que se declaram contrários a extremismos e defendem que a alternância de poder deve ocorrer de forma estritamente pacífica.
O entusiasmo do primeiro voto marcou a presença dos mais jovens. A estudante Maria Eduarda Nascimento, de 18 anos, compareceu ao ato a favor de Flávio Bolsonaro influenciada pela família e pela comunidade religiosa que frequenta. A dois quilômetros dali, as gêmeas de 16 anos, Laila e Melissa Lacerda, mostravam-se igualmente empolgadas com a mobilização em torno de Lula. Para elas, temas como a gratuidade do ensino público e a oposição ao desarmamento são os pilares que justificam a participação política.
A Esplanada dos Ministérios também foi percorrida por quem vê na eleição um marco histórico. O economista aposentado Murilo da Cunha, de 73 anos, comparou o clima atual aos grandes movimentos populares das décadas de 1980 e 1990. Em um percurso feito de cadeira de rodas, ele lamentou os afastamentos familiares causados pela divergência política. O mesmo sentimento de mudança é compartilhado pelo casal José Pedro Oliveira, de 61 anos, e Ana Carolina Campos, de 48, que abandonaram o apoio a Jair Bolsonaro após uma experiência traumática com a pandemia, passando a advogar por uma visão distinta sobre políticas de saúde.
Enquanto o Distrito Federal concentrava essas manifestações, o cenário nacional replicava a mobilização. Em Maceió e Fortaleza, apoiadores de Lula promoveram corridas e atos náuticos logo nas primeiras horas do dia. Paralelamente, manifestantes a favor de Flávio Bolsonaro realizaram eventos em cidades como Goiânia, Cuiabá, Dourados e Vitória. A reta final da disputa intensificou as agendas, com Lula passando por Rio de Janeiro e São Paulo, enquanto o candidato do PL cumpriu roteiro entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro.








