Brasília (DF) – As recentes ameaças de morte e de violência sexual enfrentadas pela deputada federal eleita Ana Elisa evidenciam o avanço da hostilização e da violência política durante o período eleitoral brasileiro em 2026. Um levantamento conduzido pelas organizações Terra de Direitos e Justiça Global mapeou 134 episódios de violência política contabilizados ao longo dos 50 dias de campanha até o primeiro turno das eleições, realizado em 4 de outubro.
O volume representa uma média de um caso a cada nove horas, superando os 121 registros computados no mesmo período do pleito de 2022. Os dados mostram que a violência foi cinco vezes mais frequente durante a disputa nas urnas do que em períodos sem campanha eleitoral, quando a média histórica era de uma ocorrência a cada 44 horas.
Do total de 102 episódios direcionados exclusivamente a pessoas candidatas, 60 tiveram mulheres como alvos, o equivalente a 58,8%. O dado ganha relevância diante da representação feminina nas urnas, já que as mulheres ocupavam cerca de um terço das candidaturas registradas.
A dinâmica da hostilidade contra o gênero feminino baseia-se em tentativas de intimidação e desqualificação, com forte incidência de ofensas de cunho machista ou misógino. Sete ameaças de violência sexual foram registradas no período, tendo mulheres como vítimas exclusivas. O ambiente digital desponta como espaço recorrente de ataques sistemáticos, embora 71 dos casos mapeados tenham ocorrido nas ruas.
A tipificação das ocorrências revela que as ameaças lideram as estatísticas, com 64 registros, seguidas por 33 ofensas, 19 episódios de agressão física, 11 atentados, cinco casos de criminalização e dois assassinatos. As duas mortes vitimaram agentes ligados à esfera municipal, sendo um vereador e um secretário municipal. Os homens concentraram os episódios mais graves de violência física, como as duas mortes e dez dos onze atentados.
O recorte racial aponta que pessoas negras representaram 44,8% do total de vítimas, somando 60 casos. Entre as mulheres agredidas, 19 eram pretas. O cenário também registrou incidência de transfobia em cinco ocorrências. A análise dos dados demonstra que as agressões contra mulheres e minorias somam-se a preconceitos estruturais preexistentes na sociedade.
Entre os autores identificados dos ataques, 26 casos envolveram agentes públicos, sendo 14 parlamentares ou governantes e sete integrantes das forças de segurança. Até o encerramento da coleta de dados, nenhum dos 134 episódios havia resultado em punição definitiva aos agressores, embora o judiciário tenha aplicado medidas urgentes, como remoção de conteúdos e medidas protetivas, em pelo menos oito situações.
A concentração geográfica dos registros aponta os estados de São Paulo com 16 casos, Rio Grande do Norte com 13, Minas Gerais com 12 e Rio Grande do Sul com 10 como as unidades federativas com maior incidência de ocorrências no período.










