Washington, Estados Unidos – O Departamento de Estado dos Estados Unidos retirou os vistos de entrada de 26 autoridades da América Latina, incluindo juízes, ex-ministros e policiais. Entre os nomes atingidos está o do procurador-geral da Bolívia, Roger Mariaca, responsável pelas investigações contra o argentino Fernando Cerimedo. O caso é considerado emblemático pela influência do consultor político na rede de apoio digital a presidentes alinhados a Donald Trump, como Javier Milei, na Argentina, e o boliviano Rodrigo Paz.
Cerimedo foi detido na Bolívia sob a acusação de tentativa de feminicídio contra a advogada Nadia Beller, além de ser alvo de apurações por supostos crimes de tráfico de drogas e enriquecimento ilícito. Em território boliviano, as autoridades policiais localizaram uma estrutura conhecida como fazenda de cliques, utilizada para impulsionar robôs e manipular o debate público nas redes sociais em prol de lideranças conservadoras. No Brasil, o nome do argentino ganhou notoriedade após o segundo turno das eleições de 2022, quando participou de uma transmissão ao vivo disseminando teses sem provas sobre o sistema de votação.
A administração norte-americana, sob liderança de Marco Rubio, justificou as revogações como parte do programa Escudo das Américas. O comunicado do Departamento de Estado sustenta que a medida visa coibir indivíduos que prejudicam governos eleitos por meio de corrupção ou narcotráfico. No caso específico de Mariaca, os EUA alegam o envolvimento do procurador em corrupção significativa, acusando-o de aceitar subornos para favorecer o tráfico e auxiliar criminosos a evitar punições judiciais, embora não tenham tornado públicas as provas das alegações.
Em resposta à medida, Mariaca classificou a restrição como uma violação à soberania boliviana e reiterou que não se submeterá a pressões externas que busquem interromper o curso de inquéritos sensíveis. O procurador destacou que o caso Cerimedo transcende as fronteiras nacionais e exige rigor técnico, descartando que manobras políticas possam servir como impedimento para o esclarecimento dos fatos que envolvem corrupção e crimes conexos no país.
O governo do presidente boliviano Rodrigo Paz adotou cautela, solicitando informações oficiais à Casa Branca antes de deflagrar apurações internas. O ministro da Defesa, Ernesto Justiniano, classificou as acusações norte-americanas como sérias, enquanto o porta-voz presidencial, Fernando Aramayo Carrasco, prometeu colaboração institucional, garantindo que o Estado dará uma resposta condizente com a autonomia do Poder Judiciário e das autoridades policiais bolivianas.
A rede de influência em torno de Cerimedo atingiu seu ápice em fevereiro de 2026, quando ele recebeu o prêmio de consultor político hispânico do ano em Mar-a-Lago, na Flórida. A honraria foi entregue por Eduardo Bolsonaro, que enfrenta condenações judiciais por coação no curso de processo. Enquanto a defesa de Cerimedo insiste que o operador é vítima de perseguição política, a investigação boliviana mantém o foco na rede digital montada pelo consultor, chamado pela revista The Economist de o homem do movimento Maga na América Latina.










