Dia 7 de setembro. Se a sua infância teve o cheiro do giz no quadro e o embalo dos áureos anos 80, você sabe exatamente do que estou falando.
A cena era sagrada: fila indiana organizada por ordem de altura (os mais baixinhos na frente, sofrendo a pressão do alinhamento), postura de soldado, mão no peito e o peito cheio de ar. Primeiro vinha o Hino Nacional. Sem desafinar no “Ouviram do Ipiranga”. Logo em seguida, sem descanso para as cordas vocais, engatávamos o Hino do Estado. Depois disso, e só depois disso, a gente marchava em ordem para a sala de aula.
Existia uma disciplina chamada Educação Moral e Cívica. A gente podia até chiar dos trabalhos em grupo obrigatórios sobre as datas comemorativas, mas uma coisa era certa: a gente sabia exatamente o que estava celebrando. Cada data festiva do calendário tinha seu peso, seu respeito e sua história decorada na ponta da língua.
Hoje? Bom, hoje a coisa mudou um pouco de figura.
As datas comemorativas viraram quase que exclusivamente um festival de figurino. Na Páscoa, a criança se fantasia de coelho, come chocolate até dar dor de barriga e o ciclo se encerra. No Dia dos Povos Indígenas, coloca-se uma pena na cabeça e pronto: cumprimos a cota cultural do ano. A memória histórica virou um grande baile à fantasia.
E aí chegamos ao 7 de setembro. Dia da Independência do Brasil! O famoso Grito do Ipiranga, Dom Pedro I no seu cavalo (ou mula, segundo os historiadores mais ranzinzas) proclamando que éramos, finalmente, livres de Portugal!
Aí a gente para, olha em volta em pleno 2026 e se pergunta com os meus botões: Independência em quê, exatamente?
A gente adora exaltar a tal da liberdade, mas até a nossa liberdade é cheia de parágrafos e letras miúdas. O voto, por exemplo. Dizem que o voto é livre. Uma beleza de democracia! Mas experimenta não ir votar para você ver… É multa, é CPF bloqueado, é não poder tirar passaporte, não poder fazer concurso, não poder nem respirar sem pedir licença para a burocracia do cartório eleitoral. É a “liberdade obrigatória”. Você é 100% livre para escolher qualquer um… desde que compareça, sob pena de perder a sua cidadania de brinde.
Isso sem falar na tal da liberdade de expressão, que hoje em dia exige que a gente olhe para os lados antes de dar um espirro mais opinativo.
Antigamente, a gente aprendia Moral e Cívica para respeitar o país, a bandeira e as nossas instituições. Hoje, parece que a gente precisa de um manual de sobrevivência só para atravessar o feriado sem arrumar confusão no grupo da família.
O 7 de setembro deveria ser um dia de orgulho profundo, de reflexão sobre o rumo da nossa nação e sobre o valor da nossa autonomia. Mas, entre desfiles oficiais, feriados prolongados e o trânsito da praia, a independência virou quase uma lembrança distante de quando a gente ficava de pé no pátio da escola, de uniforme engomado, achando que o futuro seria um gigante adormecido que finalmente tinha despertado.
O gigante despertou, olhou o boleto, viu a fila do mercado, pagou a multa do títulozinho de eleitor e decidiu que, talvez, o melhor da independência seja mesmo o feriadão para descansar. Viva a independência! Mas, por via das dúvidas, mantenha a sua identidade atualizada e o comprovante de votação guardado na gaveta, entre outros…












