Santos (SP) – O calendário reservou uma coincidência curiosa para esta segunda-feira. Enquanto Portugal e Espanha medem forças em Dallas, às 16h, por uma vaga nas quartas de final da Copa do Mundo, a memória de um confronto nascido no litoral paulista ressurge com força. Há exatamente 107 anos, o cenário futebolístico de Santos presenciava o despertar do chamado Clássico das Colônias, protagonizado pela Associação Atlética Portuguesa e pelo Jabaquara, clubes que ainda hoje mantêm acesas as chamas de suas raízes europeias.
Tudo começou em 6 de julho de 1919, data do primeiro embate entre as agremiações. Naquela ocasião, o Jabaquara — batizado originalmente como Hespanha Foot Ball Club — superou o rival por 1 a 0. A escolha do nome e a grafia com “H” não eram meros detalhes estéticos; tratava-se de uma declaração de identidade dos jornaleiros espanhóis, majoritariamente de origem galega, que fundaram a instituição em 1914.
Três anos após a fundação do Hespanha, a comunidade lusitana em Santos decidiu que também precisava de um representante nos gramados. O nascimento da Portuguesa Santista, em 20 de novembro de 1917, foi inspirado justamente no sucesso do vizinho espanhol. A partir daí, as trajetórias de ambos se entrelaçaram profundamente com a história do futebol brasileiro. Em 1941, ambos figuraram entre os fundadores da Federação Paulista de Futebol, ao lado de potências como o Santos.
O peso histórico dessas camisas é inegável. A Portuguesa Santista, carinhosamente chamada de Briosa, orgulha-se de ter cedido o meia Argemiro para a Seleção Brasileira na Copa de 1938. Já o Jabaquara detém o mérito de ter revelado Gylmar dos Santos Neves, lendário bicampeão mundial. No entanto, o peso da política global também moldou o destino desses clubes. Durante a Segunda Guerra Mundial, o decreto de Getúlio Vargas forçou o Hespanha a adotar o nome do bairro onde foi criado, evitando represálias aos países do Eixo. Já a Briosa escreveu um capítulo humanitário importante em 1959, quando recusou-se a jogar na África do Sul após três de seus atletas negros serem impedidos de atuar devido ao regime do Apartheid.
No retrospecto dos clubes, a vantagem numérica é da Briosa, com 76 vitórias em 174 confrontos, enquanto o Leão da Caneleira triunfou 53 vezes. Atualmente, os destinos divergem: a Portuguesa Santista busca seu espaço na segunda divisão estadual, após conquistar a Série A3, enquanto o Jabaquara luta para se reestruturar a partir da Série A4, mantendo o orgulho de uma administração sem dívidas e o foco nas categorias de base.
Na iminência do duelo mundial, os presidentes de ambos os clubes não escondem a preferência. Frederico Barreiros, da Briosa, torce para que o sangue lusitano prevaleça em solo americano. Já José Dominguez Fernandez, o Pepe, do Jabaquara, aposta em um 2 a 1 para os espanhóis. Em Santos, a bola rola nos corações dos torcedores, onde a rivalidade secular sobrevive, atravessa gerações e ignora as fronteiras dos oceanos.










