França, França – O presidente brasileiro levou um recado claro às nações mais industrializadas do planeta nesta terça-feira, durante a reunião ampliada do G7, na França. Enquanto o mundo discute formas de conter o avanço das redes criminosas que atravessam fronteiras, o chefe do Executivo fez questão de traçar uma linha divisória: o enfrentamento ao crime organizado é, sim, uma urgência, mas deve ocorrer sem atropelar a autonomia dos Estados.
A mensagem chega em um momento de tensão diplomática, logo após os Estados Unidos elevarem o tom contra o PCC e o Comando Vermelho, classificando as duas facções como organizações terroristas. O movimento levantou dúvidas sobre uma possível abertura para ingerências militares ou operações externas em solo brasileiro, algo que o Palácio do Planalto quer evitar a qualquer custo.
Para o presidente, não basta combater o narcotráfico isoladamente. Ele defende uma visão sistêmica, que conecte o tráfico de armas e a lavagem de dinheiro como um único emaranhado perigoso que subtrai recursos públicos e mantém comunidades reféns do medo. Mas, sob sua ótica, qualquer cooperação internacional que desconsidere a soberania corre o risco de se tornar parte do problema.
O tom do discurso subiu quando o foco mudou para a desigualdade. Com um olhar crítico sobre o cenário econômico global, ele condenou o ressurgimento de políticas protecionistas e unilaterais. Sem mencionar diretamente o nome do bilionário Elon Musk, usou a figura do primeiro trilionário do mundo como um símbolo da falência do sistema atual, ressaltando que sua riqueza supera o patrimônio acumulado de 46% da humanidade mais pobre.
Houve espaço também para um desabafo sobre o esvaziamento da solidariedade global. O presidente apontou a queda nos aportes para programas de saúde, nutrição e infância ligados à ONU. O contraste é gritante: enquanto a ajuda aos países mais vulneráveis encolhe, o planeta dedica quase 3 trilhões de dólares anualmente para despesas militares.
Ao abordar o futuro tecnológico, a postura do Brasil foi pragmática. O acesso a inovações como a inteligência artificial não deve ser um clube exclusivo para poucos. Pelo contrário, o país defende que as nações que detêm reservas estratégicas de minerais críticos tenham o direito de industrializar suas próprias cadeias produtivas, recebendo a tecnologia e o treinamento necessários para deixar de ser apenas fornecedores de matéria-prima barata.
O G7, que reúne algumas das economias mais influentes do globo, ouviu de Lula uma cobrança para que as políticas de segurança não ignorem a realidade social nem se tornem pretexto para novas formas de dominação. No fim, a fala ressoa como um pedido de equilíbrio em um tabuleiro geopolítico cada vez mais instável.












