Ibatiba (ES) – Uma teoria ganhou força durante a primeira sessão ordinária de 2026 da Câmara de Ibatiba: os áudios e prints que embasam a denúncia contra o prefeito só poderiam ter vindo de pessoas muito próximas a ele, caracterizando o que vários vereadores chamaram de “fogo amigo” ou traição interna.
“Só poderia ser alguém muito próximo”
O vereador Fernando Vieira (Republicanos) foi o primeiro a levantar a questão. “Muito se falou aqui sobre a estranheza de como conseguir prints e áudios de conversas. Todo mundo tem seu celular aqui e sabe a dificuldade que é conseguir isso. O que causa estranheza é que tem que ser alguém muito próximo”, afirmou.
Fernando foi categórico ao descartar a possibilidade de a oposição ter obtido as provas: “Quem é distante, quem é oposição igual nós somos – Marli, Wesley – não temos acesso a isso, porque estamos longe para gravar uma reunião. É quem estava presente”.
Bajuladores e a Bíblia
O parlamentar destacou que vem alertando sobre esse problema desde o primeiro mês de mandato. “Eu falo sobre os bajuladores. O prefeito é evangélico, vice-presidente de uma das maiores igrejas desta cidade, e a Bíblia fala muito sobre os bajuladores, o fogo amigo”, disse.
Fernando definiu o comportamento: “Aquele que só fala o que o cara quer escutar e por trás taca-lhe a faca, que chama atenção para um lado porque quer fazer alguma coisa do outro lado. É inexplicável como conseguiram esses áudios, esses prints”.
Todos os denunciantes eram da base
Um ponto que reforça a tese é o perfil dos denunciantes. “É interessante que todo mundo que assinou essa denúncia foi da base do prefeito”, destacou Fernando.
O vereador foi além e apontou um possível conflito de interesse: “Uma das pessoas que assina veio nesta Casa se defender por causa da empresa que está citada no processo. A esposa trabalhou até o último dia com a empresa, é assessor de um deputado federal do PL, nomeado no Congresso Federal”.
Presidente confirma: “Mal assessorado”
O presidente da Câmara, Marquinho (DC), endossou o diagnóstico durante seu pronunciamento. Vários vereadores mencionaram que Marquinho disse: “Vossa Excelência está mal assessorado. Por quê? Porque vazaram os prints do celular de Vossa Excelência”.
O vereador Ivanito (PP) repetiu a análise do presidente: “Nosso presidente Marquinho Delega disse: ‘Vossa Excelência está mal assessorado’. Por quê? Porque vazaram os prints do celular de Vossa Excelência. Então tem alguém jogando bola nas costas de Vossa Excelência”.
Marquinho questiona companheiros insatisfeitos
Durante seu discurso, o presidente fez perguntas diretas ao prefeito sobre a insatisfação interna. “Por que tem tantos companheiros seus insatisfeitos com sua gestão? Primeira pergunta que você tem que fazer: por que tem tantos companheiros que não acreditam mais na sua gestão? Você tem que perceber isso”, questionou Marquinho.
O presidente diagnosticou: “Até agora não tivemos problemas com os adversários, tivemos problemas com os companheiros que abraçaram nossa bandeira e que se levantaram de fato”.
Marquinho também criticou os secretários: “Só eu não acredito mais, porque todos os secretários sabem de tudo, querem saber de tudo. A maioria dos secretários, você chega para conversar sobre a demanda, nossa, o cara dá aula, mas não tira o pé do chão de jeito nenhum. Temos que resolver”.
Sidmar confirma: “Perseguidos por companheiros”
O vereador Sidmar (Novo), único a votar contra a investigação, também reconheceu o problema interno. “Vejo hoje uma grande perseguição de companheiro. Na nossa política estamos sendo perseguidos não por adversário, mas sim por companheiro”, afirmou.
Proposta inédita de Pelé: investigação dupla
O líder do governo na Câmara, vereador Pelé (PL), apresentou uma proposta que surpreendeu: investigar não apenas o prefeito, mas também quem vazou as informações.
“Porém, vamos investigar também, senhores vereadores, aquelas pessoas que fizeram os prints, os áudios. Como chegaram esses prints, áudios até essas pessoas?”, questionou Pelé.
O vereador foi categórico: “Não vamos passar a mão na cabeça não. Vai investigar a idoneidade do prefeito, mas as pessoas que estão juntas também serão investigadas, serão avaliadas, averiguados todos os áudios, prints, como chegaram até essas pessoas”.
Pelé deixou um recado direto: “Doa a quem doer, se preparem”.
Apesar de se declarar “braço direito do prefeito Luiz Carlos Pancote”, Pelé fez questão de estabelecer seus princípios: “Mas prezo pelo princípio da população de Ibatiba. Vocês podem ter certeza disso”.
Conselhos ao prefeito
Fernando encerrou o tema com um conselho direto ao gestor: “Mais uma vez, Dr. Luiz, cuidado com os bajuladores, cuidado com quem usa seu CPF sem o senhor saber. Mais vale quem te fala a verdade e o que você precisa escutar, que talvez seja até nós da oposição, do que quem fica passando a mão na sua cabeça e te esfaqueando por trás”.
O vereador também sugeriu: “Tem médicos, tem farmacêuticos, tem enfermeiros, tem produtores rurais, tem políticos. Escuta, escuta a base e tem coragem de tirar quem está te esfaqueando, porque o sangue não está saindo do senhor. O sangue está saindo de cada cidadão e cidadã de Ibatiba”.
Consenso sobre traição interna
A teoria do “fogo amigo” demonstra que, na avaliação de vereadores de diferentes espectros políticos, o problema do prefeito não está com seus adversários declarados, mas dentro de seu próprio círculo de confiança.










